[Notas sobre as Premiações do Teatro no Brasil]

Por Heloísa Sousa
05/02/2024

No ensaio “As palavras quando desaparecem: a dissolução da crítica contemporânea”, publicado na primeira edição impressa da Revista Barril, a autora Alana Falcão fala sagazmente sobre “o estratagema crítico de chutar cachorro morto - que segue vivíssimo” como um dos gestos inoperantes da crítica contemporânea. Passei alguns dias pensando sobre o quão morto ou o quão vivo segue o cachorro-prêmio, e qual a modalidade de chute que as palavras abaixo estariam esboçando. Buscar olhar para a trajetória de nascimento e morte dos prêmios requer algum percurso de investigação. Mas, frequentemente, tem se falado sobre os prêmios recusando suas origens e buscando dizer que suas características já não correspondem às suas próprias características (em um gesto de contradição intensa onde não se sabe se estamos disfarçando a coisa ou falando de outra coisa), por isso, trago aqui algumas notas sobre esse assunto para não deixar que elas desapareçam. 

 

1. O problema das premiações é que a gente acredita nelas.

 

2. As premiações são estratégias mercadológicas e de publicidade que servem para estimular um aumento do nível profissional a partir de parâmetros definidos pelo próprio mercado, mirando na subjetividade desses profissionais pela lógica do reconhecimento. O mercado sabe que explora as pessoas, mas depende das pessoas; então, ele precisa jogar com sua alegria para te manter submisso.

 

3. Os prêmios paulistanos e cariocas de teatro reforçam as desigualdades de produção e visibilização do teatro no Brasil - inclusive dentro dos próprios estados em que se consolidaram; e são reverberações do modo como se construiu a narração da história do teatro brasileiro que foi se centralizando na história do teatro paulistano e carioca. 

 

4. A lista dos indicados e premiados em um prêmio possuem uma estética explícita e buscam desenhar alguma paisagem visual que possa caracterizar uma “excelência” de saberes e desempenhos. Daí, as questões se repetem exaustivamente: quem pinta esse quadro? Quem está sendo pintado nele? Como se distribui a composição pictórica desse quadro? 

 

5. Quando artistas e grupos de teatro de outras cidades além de São Paulo e do Rio de Janeiro são indicados ou premiados, significa apenas e concretamente, que eles foram vistos por algumas pessoas que compõem o júri desses prêmios sem que elas precisassem sair de suas cidades. É um gesto radical de descontextualização.

 

6. As premiações de teatro são ficções. Ou seja, são narrativas imaginárias. Não confundir com símbolos ou representações.

 

7. As premiações de teatro almejam conduzir o olhar do público (paulistano e carioca) ao tentar apontar o que deve ser contemplado ou não.

 

8. Os demais públicos de teatro das outras cidades do Brasil, para além de São Paulo e do Rio de Janeiro, muitas vezes não se importam com isso.

 

9. Dificilmente conseguiremos viver em um mundo capitalista onde não haja premiações, pois um é derivado do outro. 

 

10. Muitos e muitas artistas e produtores/produtoras culturais não celebram o prêmio em si, mas a possibilidade de se reposicionar no mercado e se manter sobrevivendo financeiramente de sua produção. Nesse sentido, uma celebração que é consciente dos efeitos mercadológicos da premiação não me parece condenável, desde que paremos de disfarçar isso com as palavras “reconhecimento” e outros afetos egóicos e alegres.

 

11. Poderíamos “olhar com desencanto” (Pivotto, 2023) para as premiações paulistanas e cariocas de teatro.

 

12. O mercado sabe quando está sendo duramente atacado e é sagaz em fingir ser aliado das pautas sociais para manter-se desejado pela sociedade.

 

13. A premiação de uma pessoa não transforma uma coletividade. Ao contrário, cria armadilhas violentas para o nosso imaginário.

 

14. O prêmio paulistano e carioca de teatro é uma publicidade para quem ganha e para quem premia. 

 

15. O prêmio é essencialmente mercantil e neoliberal.

 

16. O termo “prêmio” vem do latim premiaum e significa “recompensa” e não “reconhecimento”. A palavra “reconhecer” vem do latim recognoscere e significa “tomar conhecimento”, enquanto que cognoscere originalmente indica “saber junto”. 

 

17. Em Natal, existe o Troféu Cultura (em outras cidades devem existir algumas outras premiações também) e que não funciona porque não traz nenhum efeito mercadológico para os/as artistas e produtores/produtoras culturais da cena potiguar. Ou seja, é um delírio em cima de uma ficção. E é cafona.

 

18. A cidade de São Paulo, por exemplo, não consegue nem dar conta de sua própria produção, ainda assim insiste nas hipérboles dos melhores.

 

19. Nós que vivemos em outras cidades, ainda mais as que estão a muitos quilômetros de distância do eixo, observamos toda a discussão de vocês sobre as premiações com um olhar estranhado, como se fosse algo sobre outro planeta. Vocês disputam algo. A gente nem participa desse jogo. Um jogo que só faz muito sentido onde há concentração monetária e de investimentos. Vale ressaltar, que esse jogo gera um sentimento de anseio inalcançável, um desejo por tornar-se um outro a fim de ser percebido, onde a sensação de existência passa a ser circunscrita pelo aplauso. A questão é que existe uma grande diferença entre desejar entrar no jogo e desejar o fim do jogo - e as regras do jogo não mudam somente porque você conseguiu entrar nele, talvez você tenha mudado para caber no jogo. 

 

20. Segundo o dicionário (Borba, 2011), a palavra prêmio significa "retribuição em valor, conferido por julgamento de desempenho em certame; bem material ou moral conferido por méritos especiais". Não importa o quanto se busque reconceituar essa palavra, o gesto de premiar algo ou alguém é um gesto de direcionamento e já torna implícito que algo foi escolhido como "melhor".

 

21. Premiar um/uma artista ou grupo de teatro com um post de Instagram (e comemorar essa premiação), ou seja, determinar que um post possui valor de retribuição, é o ápice do deboche. Pois a única coisa que se ganha é uma restrita notoriedade com a duração zuckebergiana de 24 horas.

 

22. Nenhuma nota escrita aqui é uma novidade. A gente sabe bem de todos os pontos; mas, muitas vezes, a gente finge que não. Criticamos o prêmio, mas celebramos quando somos premiados ou inventamos teorias que possam disfarçar as características inerentes à lógica da premiação em si.

 

23. As notas não têm a pretensão (nem o poder) de proclamar o fim dos prêmios; mas de deixar registrado suas operações e seus efeitos para que tenhamos consciência deles. Se essa consciência vier a sugerir o fim… que seja.


Nota extra: Somos também seres de celebração, capazes de inventar modos de compartilhar alegrias, estimular os diálogos efusivos e inconclusivos, coletivizar as transformações e expandir coletivamente. Pensemos nos efeitos de tornar a celebração uma forma de aplauso silencioso, aceitação das hierarquias e valorização dos protagonismos.

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