[Duas Vidas Secas]

Por Heloísa Sousa
07/05/2017

A 10ª edição do Encontro de Dança em Natal (RN) se encerra com a apresentação do espetáculo “O Crivo” com coreografia de João Paulo Gross que dança junto com Daniel Cauvet. A obra coreográfica é baseada no livro de contos “Primeiras Estórias” escrito por João Guimarães Rosa em 1962, um dos maiores autores da literatura moderna brasileira. A escrita do autor se caracteriza pela exaltação do regionalismo, trazendo narrativas que se desenvolvem no sertão brasileiro e que apesar da escassez, torna-se um espaço propício aos devaneios, instauração de mundos imaginários e reflexões sobre a existência humana e suas relações. Neste sentido, é inevitável não lembrar do livro “Grande Sertão Veredas” (1956), uma das obras mais conhecidas de Guimarães Rosa; assim como, se questionar sobre até que ponto esse autor e seus escritos não se relacionam com outro grande nome da literatura moderna brasileira: Graciliano Ramos e seu obra “Vidas Secas” (1938) que antecede o autor referenciado em “O Crivo”.

Assumo que sou exemplo da colonização cultural brasileira e que li mais livros da literatura estrangeira do que da literatura brasileira, e sei que, infelizmente, você que está lendo essa crítica pode ser mais um desses exemplos. Lembro-me de ter lido o livro “Vidas Secas” em meu último ano do ensino médio na escola, como uma literatura obrigatória para realizar os exames que me permitiriam ingressar na universidade. Lembro também desse ter sido um dos melhores livros que eu já li em minha vida. Não, eu não li nada escrito por Guimarães Rosa, apesar de saber da existência desse autor. Portanto, meu texto crítico não será capaz de apontar relações entre a obra coreográfica de João Paulo Gross e o seu material principal de referência. Inclusive, preciso dizer que o tempo inteiro me lembrei “Vidas Secas” e imaginei os dois bailarinos em cena como mais uma família que dividia o mesmo espaço de existência com a família de Baleia. Obviamente que, já em casa, dediquei algumas poucas horas a uma breve pesquisa para saber se minha associação teria alguma coerência. E ela não é tão absurda assim.  

Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.

Guimarães Rosa

As próprias palavras de Guimarães Rosa são suficientes para falar sobre “O Crivo”. No entanto, uma obra cênica é como um dispositivo que quando engatilha nos faz querer curtir a reverberação de palavras e sensações que ficam em nosso corpo de espectador; e por isso, escrevo.

Em “O Crivo”, os corpos se tornam espaço, tempo e relação. Durante todo o espetáculo, os bailarinos corporificam esses três conceitos, permeados pelas imagens suscitadas das leituras dos contos de Guimarães Rosa; e assim como a literatura do autor, utiliza um contexto específico para dizer algo sobre a re-existência humana. A obra coreográfica possui um discurso que se delineia pelos movimentos e deslocamentos, acompanhados de uma concepção de iluminação e de figurino que fortalecem a dramaturgia corporal.

Sertão. Um espaço consumido pela seca, onde o suor se mistura com o pó e se transforma em lama, que suja o chão em um rastro de quem dança. Com aquelas cores terrosas, onde a areia se funde com o céu ensolarado no horizonte e nos traz sensação de sede. Sede é falta, ausência. E mesmo que se desloque pelos quatro cantos, nada brota, pouca coisa nasce, o desespero consome e se transforma em resiliência. Dá pra continuar. Alguns galhos insistentes aparecem retorcidos, quebradiços, frágeis, se partem no meio e então, se multiplicam. Dá pra continuar. [Tudo isso no corpo, na dança].

(Im)permanência. Porque mesmo quando achamos que as coisas não mudam, elas mudam. Porque mesmo quando acreditamos que não existem possibilidades, somos capazes de inventar novas formas. Vamos vivendo e oscilando entre tentativas de alçar voos e movimentos rastejantes. Vamos nos unindo e desunindo, criando simbioses, pedaços de corpos distintos se juntam e formam um outro ser, talvez assim sobrevivamos. [Tudo isso no corpo, na dança].

Fardo. E eles que se encontraram, se amancebaram, estavam tão imbricados um na existência do outro que se tornaram um peso excessivo. Havia sempre alguma parte pra ser carregada e haviam tantos sentidos nessa união – ou talvez, fosse apenas necessidade de sobrevivência. E quando se afastavam – mas estavam ainda juntos, de algum modo – era um alívio para os nossos olhos que acompanhavam essas trajetórias. Um pouco de respiro, mas só um pouco mesmo porque, às vezes, é preciso agarrar-se em algo para não ser levado pela ventania do mundo. [Tudo isso no corpo, na dança].

João Paulo Gross finaliza esta edição do Encontro de Dança nos apresentando uma obra que parece recuperar algumas questões e problemáticas elencadas nas críticas de outros espetáculos deste mesmo evento, publicadas aqui no Farofa Crítica. O artista nos mostra um trabalho que supera os duos heteronormativos; com uma qualidade de movimentos que presentificam espaço, tempo e relação, além de conceber uma dramaturgia corporal que estimula o imaginário e se torna enunciadora de discursos que dialogam com referências consistentes da identidade cultural brasileira. Tudo isso no corpo, na dança.

Direção Geral e Coreografia: João Paulo Gross

Pesquisa de Movimento: João Paulo Gross e Carolina Ribeiro

Interpretação e Colaboração: Daniel Cauvet e João Paulo Gross

Figurino: Flora Maria e Anunciação

Iluminação: Henrique Rodovalho

Operador de Luz: Sérgio Galvão

Pesquisa Musical: João Paulo Gross

Produção Geral: Giselle Carvalho

Fotos: Layza Vasconcelos

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