Desejos interditos.

Por Diogo Spinelli
30/07/2022

 

Um forte componente erótico permeia toda a montagem de Proibido acesso, da Karma Coletivo de Artes Cênicas (Itajaí/SC). Esse campo de investigação, que atualmente tem movido diversos artistas da cena, já nos é apresentado desde a imagem inicial da obra: nela, o performer Leandro Cardoso está nu, sentado numa mesa ao centro do espaço cênico, ladeado por dois grandes ventiladores pretos e tendo ao fundo o nome da obra projetado em letras garrafais num tom de roxo neon.   No som, batidas eletrônicas, ritmadas como os batimentos de um coração, evocam um imaginário sonoro que remete ao universo das raves, saunas, boates, dark rooms e outros ambientes de pegação gay. Não que isso esteja explícito às e aos espectadores. Ao menos, não nesse momento.

O que ocorre é que grande parte do discurso de Proibido acesso se dá no campo da sugestão e da subjetividade, sendo um trabalho que, no seu decorrer, se move entre o explícito e o implícito, entre a luz e a sombra, entre o dito e o não-dito. Nesse sentido, os elementos de cena – a música, as projeções, o figurino, e principalmente, a relação do performer com seu próprio corpo – são utilizados ao longo da montagem de forma a criarem uma narrativa imagética libidinosa e queer, permeada por referências – de São Sebastião a He-man – que dialogam com o imaginário sexual do público LGBTQIA+. Contrapondo esses elementos mais sugestivos, que insinuam mais do que revelam, a dramaturgia textual da obra evidencia as intenções da mesma, guiando de uma maneira mais diretiva as possibilidades de interpretação do que está sendo compartilhado.

Isso acontece, sobretudo, no momento em que o fluxo de imagens que compõem a parcela inicial da obra é interrompido por uma espécie de interlúdio, no qual o performer se dirige diretamente ao público. Nele, Leandro compartilha com as e os espectadores de maneira coloquial as aspirações iniciais da pesquisa – que partiu da investigação de práticas sociais e sexuais que desafia as ações que, com maior veemência desde 2018, procuram a aniquilação dos corpos desejantes – e aponta as implicações da pandemia no decorrer do processo de criação do espetáculo.

Esse texto, que pode ser lido na íntegra no programa da obra, situa o público na proposta do trabalho, mas ao fazê-lo, contrasta com o restante da montagem, mais calcada na potência subjetiva da teia imagética que vai se formando na fricção entre os elementos presentificados em cena pelo corpo do ator em diálogo com o material audiovisual desenvolvido por Hedra Rockenbach – que assina também o desenho de luz e a ambientação sonora da obra – que oras multiplica ou distorce a imagem e a voz do próprio performer, ora amplia o campo de referências presentes no trabalho. 

Ao mesmo tempo, nesse jogo de claro e escuro proposto pela encenação, é a citação realizada nesse interlúdio sobre a relação da obra com a pandemia da Covid-19 que faz com que situemos o trabalho nesse contexto, e passemos a olhar para seus elementos a partir dessa chave de leitura.

A influência pandêmica se faz presente na obra em sua própria disposição espacial que, apesar de estilizada, remete aos espaços íntimos e confinados de nossas casas e apartamentos. Também é possível estabelecer essa relação quando, ainda no início do espetáculo, a primeira ação do performer consiste em besuntar/higienizar todo o seu corpo com uma substância não identificada, que pode ser lida tanto como um óleo de massagens ou um lubrificante, quanto como álcool em gel. Esse ritual de preparação, a um só tempo sensual e asséptico, gera uma ambiguidade presente também em outros momentos da encenação, nas quais a luxúria e o sacrifício, a dor e o prazer, aparecem sobrepostos ou combinados.

No segundo bloco do trabalho, pós-interlúdio, as dramaturgias textual e visual evocam encontros casuais e diferentes fetiches como bondage e pet play. Essas práticas parecem remeter a um momento histórico anterior, pré-pandêmico, presentes na memória corporal do ator, mas ainda impossibilitadas de serem realizadas no presente. Assim, durante Proibido acesso acompanhamos um corpo voluptuoso e energético, que pulsa, que almeja estar com outros, mas que se encontra limitado a realizar ritos de autoerotismo.

Tendo sua pesquisa iniciada no ano de 2019, Proibido acesso estreou apenas em novembro de 2021. Assistindo ao espetáculo, é instigante pensar sobre os impactos da pandemia da Covid-19 sobre nossos corpos e sobre a forma como nos relacionamos – ou fomos impedidos de nos relacionar – nesses diferentes momentos: até 2019; no auge da pandemia em 2020; no fim de 2021, data de estreia do trabalho; e agora, quase um ano depois. Ainda que não tenhamos regressado completamente à normalidade pré-pandêmica – eu mesmo sou um dos poucos que sigo usando máscaras em ambientes públicos, em uma luta que já considero perdida – me pergunto sobre o quanto nossos corpos continuam carregando daquela tragédia diária.

Aquele luto ainda limita nossos desejos?

Aquela memória ainda interfere em nossas ações?  
 

 

Para acompanhar as críticas dos demais espetáculos do 7º Festival Brasileiro de Teatro Toni Cunha, clique aqui.

 

Foto do banner: Lenon Cesar.

Clique aqui para enviar seu comentário