Por Mainá Santana
07/12/2025
Vez ou outra a chegança em um evento de artes pode evocar certa inquietação: como foi a escolha desses artistas? Quem participa e quem fica de fora dessa escolha? A reflexão imediata sobre o processo curatorial vem do conhecimento de que, em certos espaços, opera uma lógica de excludência, com a primazia de alguns discursos sobre os outros. Nesse contexto, o Festival Sertão em Cena se afirma: se há espaços de exclusão, é preciso criar espaços para visibilidade de outros fazeres, historicamente deixados de lado. Falar entre si para a construção de bases comunitárias, cuidando da aprendizagem construída em outras territorialidades. Umarizal, que recebe alguns festivais de artes no ano, é solo fértil, com sementes que brotam ao longo do tempo. Umarizeira, essa árvore frondosa, guarda as raízes do Festival Sertão em Cena fincadas no Movimento Escambo e na realização do Coletivo Invisível de Teatro (Umarizal-RN), com o apoio do Governo do Estado e da Secretaria Estadual de Cultura através da política nacional Aldir Blanc.
O Movimento Popular Escambo Livre de Rua nasce com Ray Lima e Junio Santos, em 1991. Flavio Gustavo, integrante do Coletivo Invisível, é quem dá a deixa: para saber mais, procure textos da pesquisadora Maria Josevânia Dantas, a Josi. Em sua dissertação de mestrado em educação (UFPB-PB), Cenopoesia, Arte em Todo o Ser (2015), Josevânia descreve o início do movimento como um encontro de oito grupos de teatro em Janduís (RN), cuja apresentação aconteceu sem programação definida, decisões sendo tomadas coletivamente em plenária circular. O Movimento Escambo tem hoje mais de trinta anos de atuação em assentamentos, favelas e bairros populares, como um movimento “itinerante, de arte popular com característica periférica” (Dantas , 2015). Para maior aprofundamento sobre o Movimento Escambo, sua mobilização comunitária em “Showniões” e ocupações do espaço público (Dantas , 2015), vale a leitura do trabalho de Josevânia.
Em Umarizal, o Coletivo Invisível de Teatro, formado na Escola Estadual de Tempo Integral Onze de Agosto, organizou o Sertão em Cena de 13 à 16 de novembro de 2025. As ações, ocorridas nas cidades de Umarizal e Olho D’água do Borges, envolvem oficinas, rodas de conversa e apresentações de diferentes grupos do território potiguar. Segundo a produtora e realizadora Rose Lotte, o eixo curatorial do encontro passa pela escolha de grupos que tenham algum tipo de envolvimento com a prática de ensino em escolas. Aqui vemos transmissão de saberes em artes, especialmente teatro e circo, mais institucionalizadas ou menos, para a construção da cidadania.
O palco está montado em uma área livre, beirando a pista, crianças e barraquinhas já estão a postos. No passado, pertinho dali, passava um rio onde os pequenos brincavam de descer em tábuas, conta Joelson de Souto, músico, poeta e um dos veteranos da Cia Arte e Riso (Umarizal-RN). Hoje, com a ampliação da cidade, o cimento compartilha espaço com o rio intermitente que corre em frente ao Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Umarizal. O pessoal já sabe quando o rio enche, ele chega até a calçada, diz Antônio Bê, multiartista de Carnaúba do Dantas (RN), que trabalha no registro audiovisual do Festival.
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Em primeiro plano, artistas da Cia Arte e Riso (Umarizal-RN), Emanuel Coringa de costas, Joelson com camiseta do Elvis e Jardeu Amorim. Ao fundo, Junio Santos (Carnaúba dos Dantas-RN) e Berg Bezerra (Cia Ciranduís, de Janduís-RN). Aqui passa o rio. Foto: Mainá Santana.
A relação de um povo com o seu território e seu fazer pode ser algo que transcende a geografia. Faz sentido que um teatro que se expresse sobre e para o Sertão, tenha uma preciosidade ímpar. O Festival Sertão em Cena tem a característica de dialogar com e entre as pessoas destes locais, longe da vontade de “provar algo” para a capital ou de se pretender um evento que fique super famoso - ainda que tenha essa potência. Há um genuíno interesse em falar sobre e entre si, sobre o que estão querendo construir dentro do território, onde, por mais que alguns recursos historicamente não tenham chegado, se olha para a produção e percebe a existência de tecnologias que fazem sentido com o tempo-espaço, com o recorte desses lugares em diálogo e construção.
I. A Política da Produção e a Persistência do Fazer
Uma das primeiras ações em Umarizal, na noite do 13 de novembro, é a honraria aos que vieram antes. Os artistas da cidade Chico Paulo, Jatão da Rádio, Luiz Alberto (Lula), Junior Praxedes, Charles Kennedy, Paulinha Leite e Da Paz Curinga falam um pouco sobre os primeiros trabalhos cênicos de Teatro de Palco e de Rua de Umarizal, em nome dos grupos pioneiros: JUTA e Gaviões da Rua, ambos homenageados. E é preciso ouvir o discurso dos pioneiros com ouvidos desromantizados. Há amor, mas todo amor que dura envolve construção, manutenção, dedicação, investimento. Fica essa sensação de que há muita demora pública na urgência de nossos fazeres para comer, para pagar as contas. Como se cria com boletos chegando na porta? É uma balança que parece nunca estar equilibrada, sempre demandando uma criatividade extra.
Um pouco sobre isso é a peça Amadores, da Cia Bagana de Teatro (Mossoró-RN), apresentada no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Umarizal, em 15 de novembro pela manhã. Os artistas Anna Gabriela, Yasmin Oliveira e André Lima, trazem dramaturgia de Leo Wagner e direção de Joriana Pontes que tensiona essa linha - o que diferencia o teatro amador do profissional? Ecoam temas como comprometimento, políticas de balcão, o trabalho em outra profissão. Quanto ensaio e abrires de mão demanda a construção de uma encenação sem recurso, que, para além da retórica do amor à arte, evoca nos artistas um pulso criativo, seu modo de estar no mundo… Vemos a peça, que dialoga com todos os artistas na sala, nos vemos na peça, mas, sobretudo, o que se dá a ver é o avesso do bordado: modos de produção, tensões no grupo, aproximações arbitrárias, poder público.
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Anna Gabriela, Yasmin e André, em Amadores, da Cia Bagana, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Umarizal. Foto: Mainá Santana.
II. O Território, o Tempo e Identidades
Na noite do dia 14 de novembro, a Cia. Teatro Nó (Luís Gomes-RN) traz o trabalho A Cabra Luzia, que tem um tempo que conecta. Cícero Oliveira, integrante da companhia, diz que quando alguém conta uma história em Luís Gomes, passa um café no meio. Há de se ter uma pausa. É possível observar essas pausas contemplativas enquanto estética no teatro de bonecos: a graça da piada se organiza na dilatação, cativando o público com as figuras da Mãe da Lua, da Caipora e outros imaginários evocados pela Cabra. A fábula, contada ao som do violino de Gil Meneguel, conta com os bonequeiros Cícero Oliveira, Cleiton Pereira Gomes e Alan Silva, em uma narrativa delicada sobre amizade e coragem.
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Gil Meneguel, em destaque. Cleiton Pereira, Cícero Oliveira, Alan SIlva e Gil Meneguel, da Cia Teatro Nó, no palco principal. Fotos: Mainá Santana.
A oficina de máscaras ministrada por Cícero, ocorreu na tarde do dia 15 de novembro, também no Sindicato, trazendo aos participantes a materialidade do papelão para a feitura de Máscaras de Caboclo. Cícero compartilha conhecimentos acerca da tinta, do modo de cortar, do jeito de ajustar a máscara ao corpo para que possam dançar por horas. Explica um pouco sobre o Brinquedo, quando as pessoas saem pedindo dinheiro pelas ruas, brincando e dançando durante o carnaval; na quarta feira de cinzas, há uma competição com colocações do primeiro ao terceiro lugar para quem brincou melhor. Conversamos um pouco sobre os mistérios das máscaras feitas pelos Dogon, compartilhando referências entre colegas que referenciam suas raízes na diáspora negra e as reconhecem em territórios diferentes do país.
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Participantes da Oficina de Máscaras da Cia Teatro Nó, no Sindicato. Cícero está em pé. Foto: Mainá Santana.
Em cena, a discussão sobre negritudes entra em pauta com o espetáculo de abertura do Festival, em 13 de novembro, Manifesto Negro, do Coletivo Invisível de Teatro (Umarizal-RN). O tom é de denúncia contra o racismo em suas diversas formas, com uma dramaturgia que provoca o público através de piadas, estereótipos e exposição de lugares sociais pré definidos nos quais o imaginário social, ainda, e muitas vezes, coloca onde pessoas negras devem estar. Os artistas Rose Lotte, Lourrany Steffany, Raérica Soares, Bernardo Henrique, Carlos Albuquerque e Flávio Gustavo, lançam mão de recortes possíveis para as experiências negras plurais, e tensionam o diálogo com o público com recursos cênicos para que não haja dúvida sobre o que está sendo dito. Em tempo, a presença da música, nesse espetáculo, reafirma o modo de produção calcado nas epistemologias negras plurais.
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Bernardo, Carlos, Raérica, Rose e Lourrany em primeiro plano e Flávio, em pé, no Manifesto Negro. Foto: Mainá Santana.
Nessas encruzilhadas, uma percepção sobre gênero: ao longo do Festival Sertão em Cena havia uma grande circulação de homens das artes cênicas. A produtora da Cia Bagana, Lívia Menezes, informalmente, revela seu interesse em conhecer mais mulheres que escrevem sobre teatro, talvez pela mesma percepção numérica. Imediatamente, emerge a memória de Heloísa Sousa, diretora, dramaturga e organizadora do Farofa Crítica, não apenas por suas realizações escritas, mas também sobre outras conversas informais sobre a necessidade de sentar-nos na “mesa dos homens” para a tomada de decisões em teatro. Acho que a postura política do Festival nos ensina algo sobre isso também. Como será que anda nossa rede de mulheridades na cena potiguar?
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Participantes do Festival Sertão em Cena, em momento informal na frente da pousada Vai e Vem, em Umarizal-RN. Foto: Mainá Santana.
A temática de gênero também aparece na apresentação Sim (Sen)hora, da Cia Bagana, no dia 15 de novembro. A encenação, um monólogo de Yasmin Oliveira, alinhava histórias de mulheres de diferentes tempos e tensiona, por meio da estética do cangaço, o lugar do poder patriarcal nesse mesmo território. Afinal, uma mulher sertaneja, não tem o mesmo lugar de identidade de um homem sertanejo, e sua pertença racial e afetividade lhes dão outras nuances. Com um duplo de firmeza e cuidado, o trabalho toca nas discussões sobre gênero, sexualidade, classe e raça, com linguagem que abre espaços para a construção com o público por sua poética, estética e dramaturgia potencializadas pela força cênica da atriz.
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Cia Bagana, ao final de Sim (Sen)hora, no dia 15 de novembro. Foto: Mainá Santana.
O coletivo Onze em Cena (Umarizal-RN), apresenta o espetáculo Conectados, na escola onde estudam, a Escola Estadual de Tempo Integral Onze de Agosto, sexta-feira dia 14 de novembro. O trabalho tem no texto um quê de absurdo, em especial quando trata das relações dos jovens com a tecnologia e aponta uma necessidade de escuta do outro, do silêncio do agora. Valesca, atriz do Onze em Cena, nos conta que quem faz teatro recebe muita crítica: para que vocês estão fazendo isso? Durante a roda de conversa que segue após a apresentação, os jovens do Onze em Cena trazem questões que permeiam o início da prática, mas que podem se manter ao longo dos anos: a pergunta do porquê estão fazendo teatro, ou mesmo a singela e densa vergonha de estar em cena. A dimensão social e cidadã quando Jeferson, um dos atores do grupo, revela que descobriu uma parte de si que nem sabia da existência. Talvez tenha sido muito revelador para todos nós, jovens ou não tão jovens, que a arte da cena poderia nos colocar em contato com algo íntimo, algo novo a cada montagem. O Onze em Cena é o segundo grupo de teatro da Escola Onze de Agosto, onde também foi formado o Coletivo Invisível, que pretende ir além da escola e das aulas de artes. Ressalto o trabalho de ensino e pesquisa da Prof. Rose Lotte, que media a construção do espetáculo, abrindo espaço para a criação junto aos adolescentes.
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Elenco do Onze em Cena, após a apresentação de Conectados, na Escola Estadual de Tempo Integral Onze de Agosto. Em primeiro plano, a Profa. Ms. Rose Lotte.
A manhã do dia 15 de novembro contou com a apresentação no Sindicato da peça Toréu - Vou Falar de Novo Só Pra Você Não Esquecer, do Grupo Teatro dos Sonhos (Povoado de Santo Antônio da Cobra, Parelhas-RN). O trabalho revela questões específicas do adolescer no Povoado da Cobra, como a pressão de “não caber no figurino da 'boa moça'", tensionamentos raciais e o imaginário da Princesa do Boqueirão e seu feitiço. Toréu é uma palavra específica do povoado: significa algo que se repete, que não se esquece. A criação do espetáculo é um resultado direto do espaço aberto pelo professor Matheus Giannini, que utilizou metodologias de ensino desenvolvidas em sua pesquisa e docência na Escola Estadual Manoel Norberto para fomentar a criação dos alunos a partir das próprias experiências de vida. A dramaturgia, os figurinos, a cenografia e outros aspectos da cena foram integralmente compostos pelos jovens, incluindo Thales Dantas, Gabriel, Ana, Julia Caldas, e outros integrantes iniciais que não seguiram na montagem. Para viabilizar o acesso a editais, o grupo, que manteve a autoria coletiva, convidou os artistas adultos Thaysa Diniz e Manoel Dantas (Neco do Acordeon) para integrar o elenco, o que trouxe outras camadas para a encenação.
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Elenco de Toréu, da Companhia de Teatro Sonho, no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Umarizal.
A super mãe de Toréu tem vontade de gritar. Ao final, o diretor me pergunta se eu me senti representada, provavelmente pela presença de meu filho Rudá dos Santos Silva, de 3 anos e 9 meses durante o evento. A escolha de trazer Rudá é uma escolha pela necessidade, mas também política. Primeiro, por ele, que tem a oportunidade de crescer com arte desde sempre, viajar, conhecer outros modos de estar no mundo. A segunda é pelo nosso próprio fazer. Como nos percebemos, enquanto comunidade artística, frente à uma mãe trabalhadora da arte e seu filho pequeno, quando presentes? Muitas vezes, é rápida a invisibilidade do maternar: existem demandas específicas que nem sempre a comunidade está acostumada a perceber. Aliás, é mais imediato perceber a criança e sua ocupação fértil no espaço do que a mãe. Trazer meu filho é um ato político também porque eu, artista, preciso dele para estar e para aprender a friccioná-lo. Afinal, andei escrevendo com a direita enquanto dava comida com a esquerda, mediando espetáculos pro pequeno enquanto assistia e tecia conexões para a presente escrita. Rudá, batizado por Junio Santos, tem agora seu palhaço, o Casquinha.
III. A Tradição Popular e Circo
Junio Santos, vem de Carnaúba dos Dantas (RN), com Cuscuz 100 conserto em 14 de novembro. Ele não dá oficinas porque, afinal, não tem conserto. Seu palhaço, o Cuscuz, pode aparecer no encontro com o outro; Junio sente estar com menos vaidade esses tempos e, pedir que alguém lhe maquie já é entrar em cena junto. Cuzcuz conversa com o público, faz piadas, interage e cicerona a noite de sábado com fluidez, abrindo espaço junto à também veterana Companhia Cultural Ciranduís (Janduís-RN). Na cena, o elenco composto por Berg Bezerra, Eduardo Cabral, Júnior Bezerra e Ryedson Oliveira, apresenta Gargalhada de Palhaço, evocando o jogo do erro, a censura e a fisicalidade.
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Cia Ciranduís e Junio Santos. Foto: frame de vídeo de Antonio Bê.
A Cia Pão Doce (Mossoró-RN), traz o espetáculo A Casatória C’A Defunta, e encerra a primeira noite, dia 13 de novembro. Suas músicas de abertura são calcadas na cultura negra, inserida na cultura popular: Pedrinha de Aruanda, Vento que Venta, o coco Rochedo o Sinhá, a congada Tá Caindo Fulô. A trama, altamente imbricada na cultura popular do sertão nordestino. Traz a incelença, as beatas, o imbróglio de casar-se do personagem principal com uma fantasma por acidente. E a risada da atriz Mônica Danuta, ecoando na praça junto aos colegas de cena Ligia Kiss, Paulo Lima, Raul Devyson e Diogo Rocha, arranca gargalhadas da plateia. Pela manhã a oficina de corpo, voz e política, pensando a diversidade.
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Cia Pão Doce. Foto: Mainá Santana.
Nessa toada, a Cia Arte e Riso (Umarizal-RN) traz Ladrões de Sorriso no sábado 15 de novembro. Toda a construção do espetáculo soa ética e poética, alinhavada com a história da companhia. Cada brincante que sobe à cena imprime, com sua estética pessoal e construção do número, a destruição de estereótipos, abrindo espaço para novos imaginários. Como é bonito o cortejo de crianças palhaças de idades diferentes, se apresentando juntas dos veteranos. Joelson de Souto conta que o bairro da sede da Cia é um local periférico da cidade, o que foi mal visto por algumas pessoas. Trazer o nome Ladrões de Sorriso, nesse contexto, puxando o tapete do público com outra resposta a pergunta “o palhaço o que é?”, recria o Brinquedo, alinhavando cidadania e potencialidade cênica.
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Cia Arte e Riso, no final da apresentação. Foto: Mainá Santana.
Todo o Festival Sertão em Cena foi fotografado pelo profissional Fabiano de Lima, que também ministrou oficina na Escola Onze de Agosto. Fabiano compartilhou seus fazeres de maneira teórico-prática com os adolescentes, com excelente receptividade.
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Fabiano ministrando oficina na escola. Foto: Mainá Santana.
VI. Modos de Fazer e Redes do Festival
É interessante a percepção de que quase todas as companhias presentes no Festival são Pontos de Cultura, fazendo parte da Rede Cultura Viva, que compõem uma política nacional. O Festival Sertão em Cena não opera isoladamente: do mesmo modo que grupos conseguem fomentos variados para a construção de suas encenações, o evento articula recursos para sua existência. Grande parte dos grupos acessou algum tipo de financiamento em sua cidade, compondo a base para o Festival. Instituições como BNB, emendas parlamentares e editais da PNAB de segmentos se somam aqui, tendo em vista que muitas dessas políticas já preveem esse tipo de articulação em edital.
O compromisso com ações cidadãs é demonstrado em diversos níveis: todo o Festival Sertão em Cena contou com ações para a acessibilidade, como legendamento e tradução em libras, e valorizou a coletividade e a construção de saberes de maneira horizontal, demonstrando a agência de pessoas artistas em seus diversos fazeres. Isso fica especialmente nítido com a escolha curatorial de abarcar grupos que tenham uma trajetória ou prática com o ensino de crianças e jovens, como um plantio e replantio.
Essa estrutura também reflete o modo de organização do evento; um grupo vem e cruza a agenda com o outro. A ideia é a troca, não apenas uma contratação, articulando a rede: "Você me ajuda e eu te ajudo, a gente soma o montante e faz um festival junto. Minha cenografia pode já ficar aqui, é base pra sua, bora compor." Essa sobrevivência nos tempos de escassez ou de bonança, onde a gente anda aqui quando tem ou não tem rio, dita o ritmo. Assim, o tempo das coisas é outro, o almoço atrasa e se faz necessário chegar mais tarde para a próxima atividade. A gente se conversa, estica um pouco o tempo e todo mundo entende. Algo do Movimento Escambo se mantém aqui: seguimos no fluxo do encontro, de uma celebração em estar juntos por alguns dias. Essa descrição do modo de fazer pode soar idílica, mas tem seus tensionamentos e fricções —"você não precisa fazer tudo sozinho" pra lá ou outra frase mais atravessada pra cá. E a diferença e diversidade de pensamento passam também constroem a riqueza do evento.
É nítido e louvável o movimento de construção de espaços para a criação de imaginários e discussões sobre fazeres das pessoas daquele território, especialmente com a produção de Rose Lotte. Grande agitadora cultural na cidade, Rose é conhecida e reconhecida por toda a região. Professora de artes da Escola Estadual de Tempo Integral Onze de Agosto, essa mulher negra, sertaneja de Umarizal e nordestina, é também uma das fundadoras da Coletivo Invisível de Teatro e uma agente essencial na articulação do Festival.
Apesar dos desafios de ser a primeira vez de um Festival com tantos eventos e programação em duas cidades (Umarizal e Olho D’água do Borges), a resposta do público é imediata: a Praça de Eventos, pela primeira vez ocupada com um palco de teatro, aguarda cheia e com um público fiel, o início do Festival. Nem tudo sai como o planejado, mas com paciência, força coletiva e organicidade, os quatro dias caminham alimentando sonhos, imaginários e poéticas sertanejas. Vida longa ao Festival Sertão em Cena!