Por Amanda Bixo
18/08/2025
Esse texto é uma publicação vinculada ao projeto “Fabulações Coletivas: Diálogos e Movimentos” do Coletivo Atores à Deriva (RN) que compõe o Circuito Funarte de Teatro Myriam Muniz 2023, com realização do Governo Federal, Ministério da Cultura e Funarte.
Assisti ao “Estudo nº1: Morte e Vida” e “Miró: Estudo nº2” numa terça-feira e quarta-feira, sucessivamente, na Casa da Ribeira. Considero este um modo privilegiado para tomar o primeiro contato com o Grupo Magiluth, e em especial com essas duas peças que, como o próprio nome sugere, partem de um mesmo raciocínio metalinguístico. Melhor dizendo, soam como um ponto de retorno, como um voltar-se a si e perguntar “Como é mesmo que faz isso que eu faço há duas décadas?”
Notas Iniciais
1. A minha ideia é começar esta escrita movida por uma pergunta: Como eu, uma especialista em dança, escreverei uma crítica sobre os dois estudos/peças de um dos grupos de teatro mais importantes do Nordeste, com mais de 21 anos de experiência e muitas, muitas críticas publicadas?
2. Escolhi não me deter a uma única peça aqui, porque no meu corpo já está tudo bem misturado e, desde que eu li em Susan Sontag sobre a coisa de buscar uma experiência mais erótica e menos interpretativa com obras de arte, eu tenho levado isso muito a sério.
3. Outra coisa que certamente não darei conta de articular além do que já foi articulado em outras tantas críticas publicadas, são as camadas sociopolíticas desenoveladas pelas duas peças. Para isso, sugiro que leia esta (p.159) crítica e esta também.
4. Assim como os dois estudos do Magiluth, este texto se valerá de tentativas
Primeira Tentativa
Chego à Casa da Ribeira minutos antes de soar o terceiro toque para começar o “Estudo nº1: Morte e Vida”. As cortinas estão fechadas e tem um microfone posicionado no canto esquerdo do palco. Giordano Castro - que estava na porta do teatro quando eu cheguei - entra, dirige-se ao microfone e narra os acontecimentos:
Não teve o primeiro nem o segundo toque, mas soa o terceiro toque. Aí a minha ideia é que eu esteja aqui, parado.(...) A cortina se abre. O que se vê é um cenário comum a peças contemporâneas, dessas do tipo “peça-palestra”, onde de um lado estará toda parte técnica que será operada pelos atores, algo que provavelmente vai dar merda. Tudo bem, fará parte do jogo. Uma luz verde de contra revela três microfones, que nesse estilo de trabalho serão usados de forma exaustiva. Entra o ator 1. Entra o ator 2. Entra o ator 3. Eles compõem o quadro (...).
O ator 3 não entra. Giordano segue sua narração e nos conta sobre a obra de João Cabral de Melo Neto, sobre as palavras concretas importarem mais do que as palavras subjetivas naquela peça, e sobre as pessoas que são assassinadas de fome. Até que o ator 1 (Bruno Parmera) e o ator 2 (Mário Sergio Cabral) saem da sombra e uma discussão começa sobre as ideias de como começar aquela peça. Um vídeo é projetado com Erivaldo Oliveira, o ator 3, ele está na margem do Rio Potengi, ele diz que a peça deve começar ali, ele diz que vai pular no rio, ele vai atravessar o rio, ele desliga. É sobre Severino, que faz uma travessia pelo Rio em busca de um lugar onde a vida seja possível. Na verdade, é sobre muitos Severinos. Eles estão vestidos inteiramente de jeans. Mas também é uma peça que está sob a perspectiva de si mesma, ela se percebe ao mesmo tempo em que se realiza.
A narração e autonarração dos acontecimentos persistem e se entrelaçam (imagine um fio trançando-se a outro fio) ao texto dos acontecimentos em si, criando uma estratégia de distanciamento que põe a peça em perspectiva para o espectador, que observa o processo de construção da forma teatral ao mesmo tempo em que é capturado pela história que está sendo contada. Quer dizer, existe um lugar criado dramaturgicamente em que se olha para a peça (forma) de fora, e outro em que os atos se desenrolam de dentro. Ao longo da 1h20 de peça, esses dois fios dramatúrgicos entrelaçam-se ao ponto da fundição (mistura), ou seja, mesmo completamente dentro dos assuntos que eles vão desenovelando nas cenas, eles também estão narrando, autonarrando e questionando a forma teatral, de modo que narrar se torna um artifício dramatúrgico que deixa tudo, inclusive, bem engraçado. Naturalmente, é o mesmo com o binômio ator e personagem, que a todo tempo transitam, ora vemos o ator, ora o personagem e ora nos damos conta que está tudo misturado, a coisa vai piorando, como uma espiral que te engole para dentro e te cospe à superfície, em ondas.
O ator 3 finalmente entra, encharcado, pilotando uma bicicleta com uma mochila delivery nas costas. É catártico porque nos sentimos próximos, justo ali, no bairro da Ribeira onde estamos a alguns metros do Rio Potengi, sentimos que é sobre nós também. Os assuntos da peça vão sendo abertos em mil abas. Para falar da obra de João Cabral de Melo Neto eles falam da emigração climática, para falar da emigração climática eles falam de Kiribati - um país situado no centro-oeste do Pacífico que vive no limiar da vida por causa da crise climática - e quando falam de Kiribati, contam sobre Toritama, a Capital do Jeans - eles estão vestidos inteiramente de jeans - e quando falam de Toritama, falam de Thiago Dias que morreu enquanto realizava uma entrega por aplicativo, vítima da uberização. Os assuntos da peça são abertos em muitos Severinos, postos em um tempo espiralar. É prismático o que vemos, em forma e em assunto. Em forma, porque não existe linearidade temporal na peça - início, meio e fim - e ela em si é fragmentada. Quando estamos absolutamente envolvidos pelo assunto, não necessariamente captando o texto, porque a textualidade é esgarçada ponto que não é possível conectar-se a cena apenas pela ordem do entendimento das palavras, mas pelas texturas sonoras que explodem o texto e pela imagem prismática que se abre diante de nós, a peça recomeça. E depois recomeça de novo. De modo literal mesmo, os atores saem e outro ator sobe ao microfone e começa a narrar tudo outra vez. Na terceira tentativa, a coisa já explodiu.
Cena de "Estudo nº1: Morte e Vida"

Foto de Vítor Pessoa
Segunda Tentativa
Chego à Casa da Ribeira minutos antes das portas se abrirem para começar “Miró: Estudo nº2”. A fila na bilheteria é grande e eu percebo que os atores - Giordano Castro, Bruno Parmera e Erivaldo Oliveira - estão circulando pelo espaço e conversando com as amizades potiguares ou fumando o digníssimo cigarro antes do terceiro toque. Não soa o primeiro, nem o segundo toque. De alguma maneira, os dois estudos começam na bilheteria do teatro porque o fenômeno social do teatro começa nesta primeira interação. Enquanto entramos e escolhemos nossos assentos, os atores também entram, seguem cumprimentando as pessoas em direção ao palco, não existe pressa. No palco, quase o mesmo do primeiro estudo, a mesa de operação técnica, um microfone no centro, uma grande parede para projeção no fundo e a diferença: uma garrafa de conhaque no pé do microfone.
Erivaldo Oliveira tem um copo de conhaque em uma das mãos, que balança e bebe delicadamente enquanto repete uma movimentação circular pelo espaço: da plateia à garrafa de conhaque, pausa, ergue a outra mão na altura do copo e observa o tremor, da garrafa de conhaque à plateia. O olhar para baixo como quem pensa sei lá o quê e um riso frouxo de ternura. Até que uma discussão começa. O que é um personagem?
Se o personagem é uma PESSOA ou qualquer outra coisa que possa se comportar como tal em um trabalho cênico, não é a pergunta que nos importa responder na próxima 1h20 de peça, porque aquele personagem que se cria diante de nós certamente é uma PESSOA. Miró da Muribeca é um poeta e performer, preto e periférico (no tempo presente, porque é dessas pessoas que não morrem), que viveu sua vida e poesia na cidade do Recife. A discussão sobre o personagem se desdobra em protagonista, coadjuvante e antagonista, e é Erivaldo que traz Miró no corpo.
Os atores do Magiluth têm uma relação muito interessante entre corpo e texto. O corpo inteiro diz cada palavra, não se sente a artificialidade de quando o texto flutua sobre o ator, muito pelo contrário, quando eles se calam, ainda é possível perceber o texto vibrar no corpo deles. Ao mesmo tempo em que, em alguns momentos, essa textualidade extrapola em tom de voz e sobreposição de falas, ou até em excesso de informações mesmo, fazendo com que, para quem assiste, reste se deter às sonoridades e aos corpos-barulho preenchendo o espaço. Isso acende no “Estudo nº2” e a criação ou relação de Erivaldo com Miró se dá justamente entre o corpo e o texto. Aqui também há entrelaçamentos e os poemas de Miró estão fundidos na dramaturgia, mas percebemos exatamente quando eles acontecem. Mesmo que não se conheça o poeta, suas poesias e sua performance, o vemos em cena e sabemos que é ele, porque o corpo de Erivaldo se transforma brutalmente quando é atravessado pelos poemas de Miró. OH MY DOG! Atravessar é uma palavra que eu gostaria de evitar, mas aí eu teria que dizer que passa por dentro, que incorpora, entende? É quase místico.
Cena de "Miró: Estudo nº2”

Foto de Brunno Martins, 2025.
Notas Finais
1. Miró da Muribeca e o Grupo Magiluth construíram uma relação de intimidade. Quando o grupo mudou sua sede para o bairro histórico de Recife, o Recife Antigo, eles se deparavam todos os dias de ensaio com uma poesia diferente grudada na porta do prédio da sede. Eram poemas de Miró. A ideia era que o próprio atuasse no “Estudo nº2”, mas ele faleceu antes disso. Ouça o estrondo.
2. Deixo aqui uma menção honrosa à Leda Maria Martins por ter escrito sobre a qualidade espiralar do tempo.
3. Foi a forma (corpo) dos dois estudos do Magiluth que me inquietaram e permaneceram comigo depois que as peças acabaram. E é justamente sobre a forma que o Magiluth tem pensado atualmente, não à toa suas últimas peças são estudos e a reencenação de uma tragédia (Edipo REC), que excedem o que esperamos formalmente do teatro. Os dois estudos são movidos por duas perguntas essenciais. No primeiro estudo, a pergunta é “como se faz uma peça de teatro?” e no segundo estudo “como se cria um personagem?”. Percebe-se que as duas perguntas não orbitam em torno do verbo “ser”, mas sim do “criar”? Isso nos sugere que a intenção não é conceitualizar/capturar/definir o que são o teatro ou um personagem, mesmo que o texto do “Estudo nº2” dispare a partir de uma discussão sobre o que é um personagem, na verdade nós estamos vendo um personagem ser criado. O movimento é por elaborar outras formas da coisa. Thereza Rocha, em “O que é dança contemporânea?” (2016) escreve que a dança contemporânea ainda e sempre não decidiu o que a dança é nem o que ela deve ser. Indecidida porque em devir e contemporânea do seu próprio devir (2016, p. 131). Depois de duas décadas criando peças de teatro, o Magiluth volta-se à origem do seu trabalho e o interroga para diferenciar-se dele, para ser contemporâneo dele mesmo e não dar-se por definido, manter-se em transformação. Podemos dizer, em relação com Thereza Rocha, que o Magiluth também está em devir e é contemporâneo do devir, porque não está se tornando ou vindo-a-ser como desenvolvimento do que já era como identidade ou como certeza na sua origem (2016, p. 132).
4. Se a pergunta é sobre a forma, ela incide também sobre o corpo. Para deformar e reformar a forma, ou corpo, teatral, é preciso deformar e reformar o corpo do ator, o corpo-texto e a relação entre o corpo e o texto. Como se faz uma peça de teatro? Como se cria um personagem? Como se cria o corpo de um ator na criação de uma peça de teatro e na criação de um personagem?
5. O Magiluth não fica preso na obsessão da pesquisa. Na roda de conversa que aconteceu na Casa da Ribeira depois da apresentação de “Miró: Estudo nº2”, Giordano Castro nos contou sobre as perguntas disparadoras dos dois estudos, mas revelou haver uma pergunta que está por trás disso tudo, e que segue se repetindo em looping na minha lembrança, “COMO EU VOU EXPLODIR ESSA PORRA?”. A questão não é alcançar formas que respondam as perguntas, mas extrapolá-las, indefini-las e explodi-las. Ou seja, manter-se em devir. Isto também me lembra o texto “O que é contemporâneo?” (2009) de Giorgio Agamben, quando ele diz que o contemporâneo é aquele que mantém o olhar fixo em uma luz que viaja veloz até nós, mas não nos pode alcançar porque se distancia de nós em uma velocidade superior a ela mesma. Não seria explodir a forma, ou a pergunta, manter o olhar fixo no escuro de uma luz que se afasta inalcançável enquanto viaja até nós, irremediavelmente?
6. Segundo a IA do Google, uma explosão é uma ocorrência física que causa uma liberação rápida e violenta de energia, geralmente acompanhada por um aumento repentino de pressão e temperatura, além de um forte estrondo. Essa energia pode ser liberada através de uma ocorrência química, como em substâncias explosivas, ou por meio de uma expansão súbita de gases. O resultado é uma onda de pressão que se propaga rapidamente, podendo causar danos a materiais e estruturas próximas. Eu não poderia pensar em outra palavra que não fosse explosão, para dar nome ao que o Magiluth faz em cena.
Foto do Banner: Brunno Martins.
FICHAS TÉCNICAS:
Miró: Estudo N.2
Direção e Dramaturgia: Grupo Magiluth
Atores: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira e Giordano Castro
Stand in: Mário Sergio Cabral e Lucas Torres
Fotografia: Ashlley Melo
Design Gráfico: Bruno Parmera
Design de Luz: Wagner Antônio
Assistência Luz: Dimi Luppi
Colaboração: Anna Carolina Nogueira, Giovana Soar, Grace Passô, Kenia Dias, Luiz Fernando Marques, Miguel Mendes.
Estudo N.1: Morte e Vida
Criação e Realização: Grupo Magiluth
Direção: Luiz Fernando Marques
Assistente de Direção e Direção Musical: Rodrigo Mercadante
Dramaturgia: Grupo Magiluth
Elenco: Bruno Parmera, Erivaldo Oliveira, Giordano Castro, Mário Sergio Cabral, Lucas Torres Amorim
Fotografia: Vítor Pessoa e Mariana Beda
Design Gráfico: Bruno Parmera