23/03/2018 - Por George Holanda

Uma visita ao passado pelos olhos do outro

Tempo Real é motivado pelo reencontro de seus criadores, o brasileiro Henrique Fontes e o inglês Ed Bailey, sendo este último seu diretor. Amigos há muitos anos, eles atuaram juntos no espetáculo bilíngue Men Meet Woman – O Amor e Tantos Desencontros, no ano de 2000, realizado pelo Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare e com direção de Fernando Yamamoto. A peça teve repercussão na época do seu lançamento em Natal/RN, ousando para os padrões locais na proposta de discutir relações amorosas e buscando atrair novos espectadores ao teatro, o que resultou numa temporada de sucesso. Passados tantos anos e alguns reencontros no decorrer deste tempo, os dois artistas voltam a atuar juntos, num projeto que envolve outros dois espetáculos, na abertura do FICA Natal - Festival Internacional Casa da Ribeira Ano I.

Em meio às várias caixas de papelão do cenário, como que remetendo às memórias guardadas ao longo do tempo e ali despertadas, Ed inicia narrando a vida de Henrique, que não está em cena, mas ajudando na parte técnica. Há uma intensa utilização de imagens e filmagens projetadas no fundo do espaço cênico. Fotos da infância de Henrique se misturam com outras diversas para contar passagens do que ele viveu, buscando o humor pela montagem audiovisual elaborada pelo australiano Alasdair Keith Gardiner. Há uma constante ironia nos encontros e desencontros entre a imagem e o texto dito por Ed. Mas esse tom se estende também na performance do ator. Os momentos escolhidos da vida de Henrique contam desde acontecimentos da infância, como seu aventurar-se na bicicleta e sua relação com a religião, até a experiência vivendo no exterior, já adolescente. Se constrói ainda um substrato político ao se relacionar os momentos vividos por Henrique com acontecimentos históricos, nacionais e internacionais. Certos calculados exageros nessa narrativa levantam alguma desconfiança sobre sua veracidade, mas talvez a incredulidade venha exatamente pelo absurdo do qual se reveste a realidade. 

Depois de quase metade do espetáculo, há uma reviravolta. Henrique entra em cena e confronta Ed. Qual seria a verdade daquilo tudo? Estaria Ed contando o que realmente importa? Ao instaurar o desconcerto, Henrique assume a própria falta de espontaneidade da sua intervenção, denunciando seu gesto encenado. A partir de então, o jogo vira e Henrique passa a falar de Ed, mas num outro tom. A ironia de antes começa a ceder espaço para uma maior franqueza no discurso, ainda que Henrique tenha ocasionais momentos de sarcarmos. As fotos de Ed são apresentadas de forma mais direta e sem tantas piadas. Um encontro mais sincero e direto entre a narração e as imagens passa a ser mais frequente, o humor parece deixar de ser um objetivo. Por vezes as imagens são colocadas em primeiro plano na narração, nos levando a conhecer a história do ator inglês com sua família, no seu trabalho… a sequência cria uma espécie de álbum de fotos. A busca passa a ser por delinear este homem. A narrativa de Henrique evoca sentimentos e até situações difíceis para Ed. O subtexto político criado a partir de grandes eventos históricos vai dando lugar para uma política íntima, das relações.

Desde o momento da troca de narradores, de Ed para Henrique, há o início de um abandono do humor e a construção de um clima mais sóbrio. A partir desta atmosfera mais íntima, somos convidados a escrever uma carta para nós mesmos, utilizando prancheta e papel distribuídos no início do espetáculo, e que será aberta daqui há um ano. Este é o momento em que os atores passam a bola da narração para o público. A bela música composta e interpretada por Ed no final do espetáculo, assim como toda a trilha, é o ponto alto desse ambiente de introspecção criado na segunda metade do trabalho. A canção também representa o fim do percurso histórico e pessoal dos atores para chegar no momento presente.

A narração de uma história pessoal (ou de toda a história) do artista ou de um outro alguém tem sido frequente do teatro já há algum tempo. O próprio Henrique, no Grupo Carmin, tem exercitado esse viés se utilizando do teatro documental. Para ficarmos em referências locais, Jacy é o maior e mais bem sucedido exemplo. Tempo Real é um Jacy das vidas de Henrique e de Ed. A proximidade entre as duas obras se estende também pela ambientação política e pelo farto uso de tecnologias. Mesmo tendo Jacy em vista, Tempo Real mira numa missão maior: narrar a si próprio, ou melhor, narrar a vida do outro em cena. Não há aqui a tentativa de se recontar a história do Rio Grande do Norte pela ótica de uma figura esquecida da história e revivida por objetos abandonados. O olhar aqui é para si próprio, o que é ainda mais difícil. Tempo Real faz um recorte que gera interesse pelo desconhecimento do público: a infância/adolescência de Henrique (já que o público local em boa parte conhece sua fase adulta) e uma versão compactada de toda a vida de Ed (já que quase ninguém aqui o conhece).

O trabalho possui um inegável sabor de uma obra ainda em construção. Num resultado que, por vezes, parece ainda atingir mais aos seus criadores do que ao público. Limitações e ousadias de um processo que se deu à distância se revelam invariavelmente. Se um maior período de ensaios e de apresentações pode dar mais carne a estas lembranças ou descobrir mais nuances na sua condução, só a história poderá dizer. De qualquer forma, a tentativa de se ver pelos olhos do outro exige a relação de amizade e confiança que há entre seus criadores.

 

Ficha Técnica

Texto, direção, trilha sonora: Ed Bailey

Atores: Ed Bailey e Henrique Fontes

Audiovisual e operações técnicas: Alasdair Keith Gardiner

Consultoria em iluminação: Ronaldo Costa

Provocação dramatúrgica e consultoria cênica: Henrique Fontes