18/02/2018 - Por George Holanda

O caminhar entre gigantes

Após uma trajetória de sucesso com o  espetáculo Gonzagão, A Lenda, que viajou bastante pelo país e alcançou um imenso público, a Cia. Barca dos Corações Partidos volta a trabalhar com outro grande nome da cultura brasileira, Ariano Suassuna, em Suassuna - O auto do reino do sol. Verdade que no intervalo entre esses dois espetáculos o grupo montou Auê A Ópera do Malandro. Mas estes últimos não passaram por Natal e não os assisti, motivo pelo qual deixo de considerá-los, o que torna este escrito incompleto como estudo do percurso do grupo e talvez voltado especialmente para o público que apenas viu aqueles dois trabalhos.

Gonzagão foi apresentado algumas vezes em Natal, oportunidade em que escrevi sobre este espetáculo (http://www.farofacritica.com.br/criticas/leiamais/25). E sem deixar de considerar alguns pontos levantadas àquela época, passo a analisar a recente e primeira apresentação de Suassuna - O auto do reino do sol, no Teatro Riachuelo, na mesma cidade, construindo ainda uma relação entre as duas obras.

Entre os pontos em comum e os que se diferenciam nos trabalhos, todos são bastante significativos. As montagens possuem encenadores distintos, o primeiro foi assinado por João Falcão e o outro por Luiz Carlos Vasconcelos, ambos diretores com reconhecida história no teatro nacional. O cuidado com que os encenadores se ocupam do desenho da cena e da limpeza das movimentações revela uma refinada qualidade técnica dos trabalhos, aproximando os dois espetáculos.

No que se refere aos temas, que tratam de nomes importantes da nossa cultura, em Gonzagão há uma preocupação, ainda que inicial, em se contar de modo linear a própria vida de Luiz Gonzaga, além de se apropriar da sua obra na construção do trabalho. Em Suassuna, a vida de Ariano Suassuna se apresenta inserida de forma muito mais difusa, longe de uma preocupação biográfica. Os destaques mais diretos quanto a sua pessoa correspondem ao Funk do Rutherford e Bohr e às pontuais imitações da sua figura, que o transformam em um Dom Quixote, funcionando como momentos cômicos em menção a sua figura tão peculiar.

Assim como em Gonzagão, em Suassuna o grupo se utiliza do recurso dramatúrgico de se inserir na narrativa como personagem. No caso, como um coletivo mambembe. Para além do efeito metalinguístico, a opção aponta para a forma como o grupo se aproxima e se relaciona com a obra do autor na cena. Assim, nos dois trabalhos temos duas linhas narrativas que acontecem paralelamente. Além da história do grupo de teatro, acompanhamos a vida de Luiz Gonzaga (Gonzagão) e a aventura do casal apaixonado Iracema e Lucas (Suassuna). A Barca dos Corações Partidos nasceu como companhia no decorrer da trajetória de Gonzagão, antes os atores haviam sido reunidos apenas para esta montagem. Assim, há algo de afirmativo na sua nova transposição à cena em Suassuna. Se o grupo, antes de virar coletivo no mundo real, foi um coletivo na cena, agora ele é um coletivo na realidade e também na cena.

Em Gonzagão, começamos seguindo a história de Luiz Gonzaga e bem posteriormente somos apresentados à narrativa do grupo mambembe. Já em Suassuna, tudo se inicia com o coletivo e só então vamos nos aproximando do escritor paraibano. Sob o aspecto do peso da participação do grupo na narrativa, este passa de coadjuvante da história de Luiz Gonzaga para (co-)protagonista de um espetáculo que se diz voltar para Ariano Suassuna.

E isso não se dá apenas na dramaturgia. A presença dos músicos na cena em Gonzagão cria uma presença de Luiz Gonzaga que paira sobre toda a encenação. Em Suassuna, o próprio grupo assume a parte musical, tocando e cantando as músicas de Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho. Já os escritos de Ariano e as referências à sua obra se colocam de forma a apoiar a história, seja do casal, seja dos artistas. Enfim, Suassuna é tratado de forma mais diluída que Gonzaga.

Em Suassuna, por vezes, o trabalho parece optar até mais por outras referências literárias do que imediatamente por Suassuna. Apesar da figura de Dom Quixote como Suassuna, em menção a Cervantes, Shakespeare é a principal referência do trabalho, quase se equiparando ao escritor paraibano, o que também ressalta para uma influência daquele sobre este.

Os três retirantes do início remetem às bruxas de Macbeth. O casal apaixonado que se declara num espécie de torre e cujas famílias são inimigas é referência direta à Romeu e Julieta. Há ainda uma realeza nos figurinos do patriarca e da matriarca das famílias que lembram os ambientes da corte como nas peças do autor inglês. E não seria o sertão um espaço, deixando de lado as características históricas, cuja carga familiar e de disputas guardaria peculiar correlação com o elaborado por Shakespeare?  

O sertão em Suassuna é mais esse lugar que convenientemente pode ser utilizado pelas referências literárias do que como espaço real e geográfico do nordeste brasileiro. Nesse ponto, a insistente repetição pelas personagens quanto a estarem no sertão desperta para a inconsistência da construção pela evocação, carecendo de elementos a embasar sua concretude. O sertão vira uma referência da fala, mais que do visual, e por isso aponta para o elemento literário que compõe o trabalho e por consequência, um passado.

Tendo em vista um sertão mais tempo que espaço, tal ideia ajuda a construir em Suassuna uma romantização do papel do ator e da função do teatro (os mambembes perambulam contando com a sorte para sobreviver). Há uma forte indulgência com os personagens do grupo. Eles são musicais, clownescos, mas também possuem a sabedoria suficiente a ajudar o casal apaixonado. É também no desempenho dos atores que se destacam os momentos da trupe. Esses são momentos de humor, irreverência, leveza... a ponto da trama do casal apaixonado se tornar uma obrigação ao caminhar da narrativa, ainda que não com menos virtuose por parte dos atores. É na trama dos saltimbancos que se verifica o maior interesse do espetáculo. Assim como da cenografia, já que o maior elemento cênico do trabalho, o elaborado carro-estandarte, é utilizado principalmente pela trupe.

Os momentos centrados nos artistas mambembes revelam uma certa suspensão nas histórias baseadas em Suassuna, porque simplesmente muitas vezes esquecemos de Suassuna, que é colocado em função do grupo. Se com Gonzagão havia uma necessária utilização do compositor na cena, em Suassuna, o escritor parece um convidado na festa da Barca. E isto não tira a grandiosidade e o respeito conferido ao autor paraibano na peça, mas apenas revela que o grupo deseja falar de si mesmo. Talvez para isso precise soltar a mão dos gigantes com quem tem caminhado junto. Eles passaram a ser bem-vindos, mas com restrições. O difícil é abandoná-los, pois eles são garantia de que a festa será um sucesso.

 

 Ficha Técnica

Direção: Luiz Carlos Vasconcelos

Texto: Bráulio Tavares

Música: Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho

Idealização e Direção de Produção: Andrea Alves

Com a Cia. Barca dos Corações Partidos: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros.

Atriz convidada: Rebeca Jamir

Artistas convidados: Chris Mourão e Pedro Aune

Cenografia: Sérgio Marimba

Iluminação: Renato Machado

Figurinos: Kika Lopes e Heloisa Stockler

Design de som: Gabriel D’Angelo

Assistente de direção: Vanessa Garcia

Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno

Produção Executiva: Rafael Lydio