23/09/2017 - Por Paul Moraes

Alegria de Náufragos: alegria de todos nós

“ – Digam, por favor, um tema para que eu possa fazer uma tese. Digam uma palavra ao menos. Vamos digam!

(grita alguém dos fundos da sala de aula) – Teatro!

 – Teatro é a arte do homem, feita para e pelo homem para muitas vezes discutir e refletir sobre as condições e relações humanas, isso desde seu primórdio lá nos Rituais do Ditirambo ganhando força na Grécia Antiga. Aproveito e reitero que, comumente, os leigos insistem em apresentá-los como responsáveis pela criação dessa linguagem quando na verdade eles são responsáveis por parte da elaboração dessa arte e de seus conceitos, isso sem sombra de dúvidas não podemos deixar de concordar. Contudo, esclareçamos que esse é apenas um dos braços da História do Teatro no qual nos debruçamos quando na verdade o Teatro acontece concomitante pelo mundo ao longo dos anos até chegarmos nos dias de hoje mais precisamente em...”

22 de setembro de 2017, para a primeira noite do Festival O Mundo Inteiro é um Palco - ano V, no Barracão Clowns com o espetáculo Alegria de Náufragos. O que está entre aspas é meu jeito de buscar uma proximidade entre quem lê esse texto e o espetáculo. O meu prólogo é um improviso em cima de um jogo que os atores estão o tempo todo jogando em cena. Logo de cara, conceitos, pensamentos e conjecturas são lançadas, e isso se repete de forma renovada ao longo do espetáculo, criando assim um ritmo frenético que dará o tom de boa parte da obra. O que está entre aspas é meu improviso em cima da dramaturgia que o grupo Ser Tão Teatro propõe juntos aos também dramaturgos e diretores César Ferrario e Giordano Castro, para apresentar a história de um personagem que talvez pudesse ter improvisado minhas palavras. Esse personagem?

Nicolai Stepianovitch de Tal, o emérito professor que ao longo do espetáculo apresenta sua vida, seus feitos e sua capacidade de ser (in)substituível, resultado de uma reflexão sobre si. E ao final da vida, isso deve acontecer para todos, assim presumo, quando olhamos para toda a nossa trajetória e constatamos onde e como chegamos, e se ter chegado ali com tantos títulos, homenagens e honras foi realmente importante frente a ideia de sermos felizes conosco e com as escolhas que fazemos, mesmo que essas não tenham envolvido tantas honrarias.

Essas questões ficam ainda mas largas e profundas quando o espelho dessa história é Kátia, pequena órfã por quem Nicolai guarda um afeto paternal. Kátia decide partir e ir se aventurar pelo mundo como atriz de Teatro, linguagem a qual defende como verdadeiramente essencial diante de todas as outras e da vida: “O teatro é para mim a força que reúne em si todas as outras,[...] nenhuma outra arte, nenhuma outra ciência, isoladamente, é claro, são capazes de falar tão bem sobre a alma humana como a teatral...”.

Percebam que não me distanciei ainda da história erguida em ritmo acelerado, e que como já dito, é muito bem construída na poética de uma oratória e uma corporeidade bem articuladas e desenhadas pelos atores dentro de jogos de improvisação que parecem ter sido o caminho procedimental do trabalho e que imprime essa sensação  de aceleração em quem assiste, de modo que na cena é sensível perceber a pulsação dos atores para que chegue até o público um experiência espontânea, quase como se tudo fosse um improviso elaborado no tempo presente – o que em algum momento é feito. Diante de improvisos, escolhas e resultados, a obra faz me pensar que não diferente disso, é a vida.

Diante desse encontro, claramente, compactuo com o pensamento que ao meu ver está no inconsciente desse trabalho: de que o teatro tendo por seu elemento primordial o performer/o atuador encerra nos outros elementos de cena a função de dar os retoques finais ao colorido desenho que os atuantes constroem. Minha leitura é reforçada, quando em um palco com poucos elementos de cenografia elaborados por Maria Botelho, uma espécie de baú  com rodinhas, o principal entre os elementos, ganha vida no jogo dos atores e se redimensiona a cada cena.

Ainda nessa concepção o trabalho de figurino está muito mais elaborado na escolha dos acessórios que estão o tempo todo sendo trocados entre os atores, haja visto o uso do coringa em cena (coringar é um termo utilizado quando há a troca de atores na execução do mesmo personagem). Já o desenho de luz é simples na sua ação, o que, mesmo tendo ocorrido alguns delays que não prejudicaram a cena, me faz crer em um trabalho elaborado na medida certa e assinado por Polly Barros, como uma estratégia inteligente para que o todo não se tornasse exagerado para além do toque histriônico que está preservado na essência do espetáculo.

A sinapse iniciada diante da cena e elaborada com um tempo, a respiração travada no início e o recuperar do fôlego, são imagens que vivi e me ajudam a finalizar meu discorrer sobre Alegria de Náufragos, que é um título do qual me questiono e me respondo através de minha licença poética: como sendo a trajetória, o percurso que todos nós, náufragos na vida, fazemos. O espetáculo é um convite sincero e humilde de pensar humanamente sobre nós mesmo e nossas relações com as ideias de sucesso e fracasso ao qual somos expostos em detrimento de nossos desejos. Portanto, sendo talvez o mais importante, “não a glória, mas a capacidade de suportar”.