13/02/2017 - Por George Holanda

Vida que se canta junto

No início de Gonzagão, A Lenda, espetáculo dirigido e escrito por João Falcão, os atores anunciam contar uma versão imprecisa da história de Luiz Gonzaga. E de fato o tom histórico não é a principal preocupação da peça. Somos apresentados a uma seleção de momentos da sua vida, algumas contadas de forma cômica e outras, dramática: o encontro dos seus pais, sua infância, a descoberta da música, o auge da sua carreira, um encontro com Gonzaguinha, entre outros, tudo pontuado pelas músicas do Rei do Baião. Especialmente na primeira parte da peça, a história é contada aos saltos e num ritmo ágil, com cenas de marcações precisas e arriscadas, temperadas com uma irreverência típica da cultura popular, do qual faz parte o universo de Luiz Gonzaga.

Mas se num primeiro momento o espetáculo se volta unicamente a contar a vida de Gonzaga, num segundo, aparece, sem maiores cerimônias, uma trama paralela. A peça passa a mostrar também a história de uma trupe de atores chamada Barca dos Corações Partidos. Este grupo de teatro enfrenta o dilema de descobrir uma mulher entre seus integrantes, até então formada somente por homens, e o amor que aquela desperta causa disputas que podem levar ao fim do grupo. A história da trupe é contada por meio das músicas de Luiz Gonzaga. Por um momento, a Barca dos Corações Partidos ocupa maior destaque no enredo, mas logo voltamos à vida de Luiz Gonzaga. Por fim, o grupo de teatro passa a ser o narrador dos percalços de Gonzaga, com as duas trajetórias se misturando.

O início tardio da história da trupe pode causar alguma estranheza, mas na verdade a inclusão deste grupo reforça a ideia que serve de base para o espetáculo, que não é contar somente a vida de Luiz Gonzaga, mas utilizar sua música para também contar a trajetória da trupe. E com isso o espetáculo dá uma dimensão mais pessoal à obra de Gonzagão.

A mistura da história do grupo com as músicas de Luiz Gonzaga mostra que a construção da peça se dá a partir do que fez o Rei do Baião e não fechada nele mesmo. Exemplo disso são os arranjos inusitados de algumas músicas, que não se limitam a versões mais conhecidas, mas adicionam elementos de outros gêneros musicais, numa combinação que mantém o respeito e a homenagem a Luiz Gonzaga, mas também inova e mostra toda a interferência criativa dos responsáveis pelo trabalho.

 A presença dos músicos na cena e a história de um grupo de atores que representa um grupo de atores, como exercício de metalinguagem, simboliza a vontade de não só cantar Luiz Gonzaga mas também cantar a si próprio. Os atores da Barca dos Corações Partidos não são todos caracterizados como típicos sertanejos, como se poderia presumir numa óbvia trama de Luiz Gonzaga, mas assumem características outras, como um corpo que nos remete ao trabalho físico do palhaço, o uso de rastafári e até o trânsito entre identidades de gêneros. Existe a presença da personalidade, seja de João Falcão, seja dos atores, em quem criou Gonzagão, A Lenda, como artistas que dialogam com o próprio Luiz Gonzaga.

Interessante pensar ainda que a Barca dos Corações Partidos é o nome do próprio grupo de atores formado a partir da montagem de Gonzagão, A Lenda e que deu continuidade a outros espetáculos após este trabalho, num processo inverso ao habitual, já que o grupo que existe na cena originou o grupo na vida real.

Este toque mais pessoal de Gonzagão, A Lenda nos aproxima ainda mais da obra deste grande compositor, o que se comprova pelo sucesso do espetáculo. A peça já fez várias turnês pelo nordeste, sempre atraindo grandes plateias. E se já partilhamos de uma familiaridade com Luiz Gonzaga, testemunhar artistas que se alimentam dele para cantar a si mesmos parece ser um caminho potente para atingir o coração do público.

 

 

Ficha Técnica:

Gonzagão, A Lenda

Texto, direção e roteiro musical: João Falcão

Elenco: Apresentando: Marcelo Mimoso e Lu Vieira – Atores: Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fabio Enriquez, Paulo de Melo, Renato Luciano e Ricca Barros

Músicos: Beto Lemos – Viola e Rabeca / Daniel Silva – Cello / Rick De La Torre – Bateria e Percussão / Rafael Meninão / Marcelo Guerini – Acordeon

Direção musical: Alexandre Elias

Direção de movimento: Duda Maia

Direção de produção e Idealização: Andréa Alves

Cenografia e Adereços: Sergio Marimba

Figurinos: Kika Lopes

Iluminação: Renato Machado

Preparação Vocal: Carol Futuro

 Assistente de Direção: João Vancine e Clayton Marques

Programação Visual: Gabi Rocha

Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno

Produção Executiva: Rafael Lydio e Monna Carneiro