13/01/2017 - Por Heloísa Sousa

[Ninguém é, está todo mundo estando]

É possível escrever crítica sobre uma performance? Não sei, mas o mundo é dos que se arriscam. Então, aqui estou. Até porque, se pensarmos sobre a influência da performatividade em outras expressões cênicas e formos considerar uma distância entre os conceitos de crítica e performance, seria impossível falar sobre qualquer cena contemporânea. Mas, ainda assim, considerando o caráter instável da arte da performance, escrever sobre aquilo que não se estabelece em padrões de representação torna-se um desafio e exige uma reflexão sobre a própria ação da crítica. Segundo a pesquisadora Beatriz Cerbino:

Crítica também se origina da palavra grega krinein (krinen), que quer dizer quebra, esforço de quebrar uma obra artística em pedaços, para pô-la em crise, interrogando-a e, ao mesmo tempo, interpretando-a. Há, nesse sentido, uma busca pela produção de conhecimento, e não apenas pela reprodução. A intenção é propor uma reflexão para que o público possa se apropriar da obra não apenas de maneira rápida e fugaz, em um fast-food cultural que pouco ou nada tem a acrescentar, mais de modo mais denso em termos de significação da obra e seu respectivo contexto artístico (pg. 21, 2010).

Nesse sentido, esse texto talvez se apresente como uma forma de acompanhar em palavras a crise instaurada pela própria performance em si, em relação aos paradigmas artísticos. A incapacidade de definir a linguagem da performance permite que ela, enquanto expressão artística, seja aquilo que se apresenta no mesmo momento em que se apresenta. Portanto, a ação performativa torna-se uma proposta dialógica e problematizadora entre o artista e o espaço-tempo em que está inserido, sugerindo relações com um percurso histórico ao mesmo tempo em que apresenta outras formas de expansão artística.

No dia 27 de novembro de 2016, a performer Carol Piñeiro junto a artista Anádria Rassyne apresentaram a performance “A arte precisa ser” na Boca – Espaço de Teatros, esta ação é integrante do projeto “Pina Marina em Carolina” que propõe várias ações formativas e performativas baseadas na pesquisa desenvolvida por Carol Piñeiro durante o seu mestrado em Artes Cênicas na UFRN, orientado pela Prof. Dra. Naira Ciotti. Vale ressaltar que Natal possui um cenário de performance muito relevante, mas com algumas ações que se perderam na ausência de documentação histórica ou por falta de investimentos em eventos que promovam o diálogo e a expressão desses artistas. Nesse contexto, Carol Piñeiro se apresenta como uma das poucas artistas de Natal em resistência nessa linguagem no momento presente, e se soma, historicamente, a outras performers mulheres da cidade que podemos destacar, como Civone Medeiros e Sânzia Pinheiro.

“A arte precisa ser” trata da relação do corpo feminino com os padrões de beleza impostos midiaticamente, mas também traz um arsenal de outras referências artísticas e instaura uma ação a partir disso.

Pesquisando um pouco [novamente] sobre esta temática encontro um documento produzido pela Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência Contra a Mulher, realizada em Belém de Pará em 1994. No art. 6º encontra-se: “o direito de a mulher ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados de comportamento e práticas sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade ou subordinação”. Respire e pense. Quando lemos documentos produzidos por convenções, tratados, planos nacionais e constituições em defesa dos direitos humanos nos deparamos com um pensamento tão eticamente coerente que parece que veremos unicórnios saltarem da tela do computador a qualquer momento. A incompatibilidade entre o pensamento humano sobre a humanidade em si e a sua prática, a sua realidade, é tão grande e assustadora que chegamos a naturalizar as estruturas de opressão e estranhar a possibilidade ética do encontro e da convivência, onde possamos nos afirmar no mundo a partir dos nossos próprios desejos de existência.

A performance em questão coloca em evidência alguns elementos estereotipados pela mídia da moda como as vestimentas justas, o sapato de salto alto, os cabelos alisados, os cosméticos oleosos; e mais ainda, nos coloca diante de nossos próprios julgamentos e análises sobre o corpo do outro, no caso, das duas performers em cena. A obra pressupõe a nossa recepção, enquanto espectadores, e nos faz observar exaustivamente os nossos próprios preconceitos ao ponto em que eles se diluam em uma percepção das imagens desses corpos em relação com elementos [quase] naturais. Algodão, fruta, planta, corpo-pele [nudez]. Ou. Roupa, melancia, melado de cana, artista em evidência. É difícil evitar o vício de determinar as pessoas a partir das escolhas que elas fazem sobre o seu próprio corpo. Somos espectadores-julgadores por excelência, quando devíamos estar buscando sermos partes de momentos de compartilhamento da expansão do outro, seja em modos artísticos ou não. Deixar estar, como quiser. O corpo qualquer, qual-se-quer (Ler Giorgio Agamben, 2013). Nada precisa ser bonito.

Ao me deparar com uma discussão sobre os padrões de beleza em uma ação performativa, penso no quanto esse tema já foi tratado exaustivamente, o quanto de discurso moldado já foi produzido sobre isso e me questiono se ainda existe algo a mais pra ser falado sobre esse assunto. Mesmo que ele ainda corresponda a uma realidade. Talvez por isso, tenha demorado tanto para escrever esse texto. Penso que questionar o padrão de beleza é apenas uma das batalhas, para além disso, deveríamos instaurar uma guerra contra o conceito de beleza em si. Não é apenas o padrão de beleza que está saturado, mas a própria noção e necessidade da beleza fortemente atrelada a convicções morais incoerentes. Imagine um mundo onde não precisássemos determinar o feio e o bonito, e muito menos associar isso ao certo ou errado. Essa rede de relações é completamente falha e prejudicial aos sujeitos e seus processos de composição de si mesmos; principalmente se pensarmos nos marginalizados, nas mulheres e na arte [contemporânea].

A pesquisa de Carol Piñeiro perpassa a estratégia da reperformance como dispositivo de criação e nos traz a discussão sobre como lidamos como as nossas referências em um processo criativo. Nesta obra é possível ver Carol Piñeiro, Anádria Rassyne, Pina Bausch, Marina Abramovic e até um pouco da espanhola María La Ribot [e outros que você queira enxergar, a partir da sua própria experiência]. Em nosso tempo pós vanguardas artísticas europeias, pós superação da necessidade do novo, vamos nos [re]apropriando de nossas potencialidades antropofágicas e sugerindo a montagem de ações artísticas surgidas do encontro entre nós mesmos e nosso contexto, como uma possibilidade dramatúrgica.

Nesse ponto, ressalto a problemática da dramaticidade em algumas ações que parece nos desviar da presentificação da performance, sugerindo uma “atuação” das ações encadeadas. Ao mesmo tempo em que essa percepção problematiza a própria fronteira (existente?) entre o teatro e a performance e sugere que estamos diante de uma outra ação artística, talvez não nominável e que se instaura a partir do desejo e da presença das próprias artistas. A categorização das artes torna-se uma armadilha na recepção. A partir daí, penso que a performer Carol Piñeiro vem instaurando um espaço para uma possibilidade de direção de performances na cidade, apresentando um trabalho consistente na concepção dessas performances coexistindo (ou não) com a presença dela mesma em suas ações.