04/08/2020 - Por Quemuel Costa

A Contaminação da Violência

Eu tive um pesadelo na noite em que assisti a “A Tragédia Mais Insignificante do Mundo” pela primeira vez. Um pesadelo que no momento em que acordei eu sabia que tinha a ver com a obra, eu sabia exatamente o trecho que havia me marcado sem eu nem perceber. A cena perto do fim quando a perita decide enterrar os corpos dos bichos.

É a partir desse contato explícito da peça com o meu inconsciente que eu penso a sua importância como uma obra que atravessa e contamina seus espectadores. Essa primeira experiência aconteceu em dezembro do ano passado, na Casa da Ribeira, antes do mundo pandêmico em que nos encontramos. Mas foi em meio a esse fim do mundo que pude assistir à peça mais uma vez, dessa vez através de sua gravação. Coincidentemente, a gravação da peça, disponibilizada durante o festival online Cenas do Nordeste, foi feita no dia em que a fui assistir pela primeira vez – pelo vídeo até consigo me ver entrando no teatro e sentando na plateia.

 Ao assistir à gravação da peça, dentro do meu quarto, eu sinto reverberar novamente em mim algumas das mesmas impressões, atravessamentos e contaminações que a experiência presencial de sete meses atrás havia provocado. “A Tragédia Mais Insignificante do Mundo” é uma peça que fica. Que envelheceu bem na memória. Lembro que no momento que adentrei na sala de teatro a atriz já estava em cena, espalhando o sangue das cabras pela cena do crime. Principalmente por conta do plástico branco utilizado para demarcar o chão e do plástico transparente no fundo do palco, o tablado da Casa da Ribeira parece outra coisa que não o palco tão característico pelos tijolos expostos no qual já vi tantas histórias. Vira um frigorífico, uma cozinha, vira a cena do crime do assassinato de três cabras.           

Eu cheguei a pensar que a obra iria se debruçar sobre o porquê do assassinato das cabras. Mas há um por quê? O foco é sobre o que levaria alguém a matar uma cabra, não necessariamente sobre a morte das vítimas. O assassinato delas é o ponto de partida para falar sobre violência.

“A tragédia mais insignificante do mundo é uma obra sobre como uma criatura se torna então capaz de ferir outras criaturas.”

Não sabemos muito sobre quem são essas cabras nem sobre quem é esse assassino. As cabras cenográficas feitas por Luiza Saad não têm uma forma exata, são um amontoado de carne e sangue que podem ter diversas leituras e aparências diante do olhar do público. Quando as vi pela primeira vez pensei que estava diante de gigantes corações humanos.

Em alguns momentos eu tenho a impressão de que a cabra pode ser eu. Apesar de não ser uma cabra. Mas homens também mat. Ao mesmo tempo que um incômodo vai sendo gerado em mim e na plateia e eu penso que o assassino pode ser cada um de nós. E ainda que não seja, percebemos que há um pouco dessa violência em cada um que pagou ingresso e adentrou o teatro. Mesmo que em uma forma menor (ou diferente), a violência está aqui. Até onde a violência é socialmente aceita? Estamos todos contaminados por uma terrível e humana violência? 

"Eu vou continuar perguntando: você já fez isso? Você já fez aquilo? Na tentativa de que subitamente vocês se deem conta de algo."

 As artistas do Teatro das Cabras constroem o trabalho de forma que uma das formas cruciais de acessar a peça é através do incômodo. Talvez por ser a segunda vez que assisto ou por se tratar de uma gravação e suas limitações, esse incômodo infelizmente se perde um pouco nesse segundo contato com a obra, principalmente na cena do segundo ato onde há um jantar/interrogatório da perita com o assassino. Lembro que na experiência presencial me mexi no meu assento e logo em seguida veio o texto da perita dirigido ao assassino: "Eu percebo você trocar de posição na cadeira, você tá impaciente?". A luz piscando na cena em que a criança transforma o pedestal em arma também foi incômoda presencialmente por conta da luz forte que nos permite ver apenas lapsos dos movimentos, o que a gravação não reproduz totalmente – mas isso não diminui em nada o trabalho incrível de Cléo Morais na iluminação, que é muito bem captado pela câmera. Mesmo com essas questões próprias do chamado “teatro filmado”, a forte e marcante visualidade da obra, junto à precisa, marcante e coreografada atuação de Fernanda Cunha, além de todos os demais elementos da peça , garantem uma excelente fruição mesmo através da tela de um computador.           

“A Tragédia Mais Insignificante do Mundo” é uma peça que pergunta mais do que procura responder. O não dito na obra é extremamente importante. A imagem já diz. No primeiro ato são dezesseis minutos sem um texto sequer, o que para alguns pode se tornar um momento cansativo, mas trata-se de uma dilatação do tempo, onde viramos testemunhas – talvez cúmplices – do crime que está sendo posto em cena. O equilíbrio entre texto e imagem é definitivamente um feito da obra. Apesar da peça toda se passar no mesmo cenário, há uma diferença marcante entre os três atos, principalmente no que diz respeito ao ritmo. O ato final da peça ganha um caráter metalinguístico e que revela possíveis vestígios do próprio processo, além de aproveitar melhor a presença e atuação de Thuyza Fagundes, que entra em cena no segundo ato mas para pouca coisa além de ficar sentada no fundo do palco. O terceiro ato é inclusive um dos poucos momentos em que é possível ouvir risadas do público.

Se no decorrer da peça, eu penso que talvez estejamos todos terrível e profundamente marcados pela violência, ao acordar do meu pesadelo consequente da peça, eu tenho a certeza de que saí da Casa da Ribeira, e agora novamente no Cenas do Nordeste, contaminado pela obra. No texto final a dramaturga diz que o público vai para casa contaminado por sangue e lágrimas, mas a minha contaminação já havia ocorrido; a desobediência das cabras já estava alastrada pelo meu corpo: elas foram enterradas no meu inconsciente. No meu pesadelo.