30/03/2020 - Por Heloísa Sousa

[Na contemporaneidade, os corpos entram em colapso...]

Em “Por onde andam os porcos”, a coreógrafa Kildery Iara, radicada em Recife, propõe uma obra em dança que dialoga com as urgências desta linguagem na contemporaneidade, ao mesmo tempo em que corrobora com iniciativas que transitam pelos mesmos dispositivos de criação. Existe uma linguagem dentro da linguagem e a dança se apresenta como espaço de experimentação contínua de novos agenciamentos, posições e corpos, interferindo nas políticas vigentes e sugerindo outros modos de estar em movimento. Há uma performatividade naquilo que chamamos de dança contemporânea, ao mesmo tempo que a linguagem vacila em algumas estratégias que se repetem e saem de seu caráter performativo para adentrar o campo das escolhas repetitivas. Há uma corda bamba, uma linha tênue que artistas estarão frequentemente se aventurando e é esse abismo que justifica as pesquisas em si.

A obra da artista pernambucana propõe desvios de espaço, corpo e narrativa. É interessante observar – ao menos do meu corpo de espectadora – o quanto propostas que desobedecem os acordos formais e esperados da cena parecem propor uma experiência mais intensa, concentrada e confortável – não no sentido do conforto em si, mas do reconhecimento – em contraposição as cadeiras duras e limitadoras dos teatros expondo, por vezes, narrativas previsíveis. Em “Por onde andam os porcos” a divisão público e plateia é borrada, os olhares podem ser direcionados a múltiplos pontos e a linearidade é insuficiente para descrever a ação.

Ao adentrar no espaço, nos percebemos em um palco enorme, as cortinas estão semi abertas, a técnica está no palco e as cadeiras da plateia ao fundo vazias. Com muitos refletores acesos, a altura do espaço é evidenciada e parecemos estar todos em algum tipo de buraco ou caixa. A plateia vai se dispondo aleatoriamente, se movendo em uma paisagem de corpos mutável que acompanha a ação. Demorei certo tempo para entender quem era artista e quem era público, algumas interações possíveis mostram que de fato, estávamos presentes, todes nós. Quatro corpos correndo pelo espaço, esbarrando ou pulando sobre as pessoas, a ameaça do choque gera tensão e ao mesmo tempo confiança, alguns toques entre eles eram brutalmente evitados. Havia uma urgência no deslocamento, uma perseguição.

Os corpos que correm começam a se despir e a se amontoar, por vezes, enfileirados. Aqui destaco a escolha de Kildery Iara em colocar em dança a si mesma e outros corpos que não seguem o padrão branco e cis conveniente das obras de arte. A presença desses corpos descoloniza a dança e afirma existências estigmatizadas como ‘outras’, mas que na realidade sempre estiveram criando e se criando no mundo. Um drone supervisiona o espaço. Vigilância. Gostaria de saber o que aquela máquina registra, mas aqui, a presença da máquina em si é mais relevante. No entanto, sempre há alguém por trás da máquina que manipula a vigília.

Enquanto palavras são projetadas na parede indicando capítulos desta dança, a lógica de movimentação se modifica e com isso, a narrativa. Corpos em decadência tendem ao chão, há um esforço em permanecer na verticalidade, colapso, inevitável não pensar na pandemia e naquilo que corrói os corpos por dentro. Não vemos a causa, apenas somos expostos as consequências.

É nessa categoria de movimentos e sua dilatação temporal que me questiono se estou diante de uma exploração da contemplação e da sustentação do movimento ou de uma nova perspectiva do virtuosismo da resistência sobre o corpo que dança na contemporaneidade. Quanto tempo é possível permanecer? Quanto suor escorre? Quantas tensões e violências são possíveis articular? Como causar temores? Como criar riscos?

Em uma possível ascensão desses corpos, próteses são acopladas. Estruturas enormes, outras menores, modificam as silhuetas corporais ao mesmo tempo em que enfatizam sua animalidade. O caráter provisório e improvisado dos movimentos não colabora para a sustentação de algumas imagens extremamente potentes e curiosas. Aquelas figuras humanas e ao mesmo tempo monstruosas ocupam o espaço com força e presença, até abandoná-lo e nos deixar diante de nós mesmos, o público.

A obra é baseada em livros como “A Sociedade do Cansaço” de Byung Chul Han e expõe as figuras que engendram o sistema capitalista e sua ânsia pela produtividade. Em vias de uma pandemia, foi inevitável para mim, não fazer um paralelo entre a situação, a obra e a desestabilização do sistema capitalista, ao mesmo tempo que cis-tema busca a qualquer custo se sustentar sob as pilhas dos corpos mortos. Kildery Iara consegue propor algo em dança que enfatiza suas emergências e apresenta caminhos de pesquisa e prática coerentes com nosso tempo-espaço.