11/03/2020 - Por Heloísa Sousa

[Não tenha cuidado!]

São Paulo, 10 de março de 2020.

Eu nunca tinha visto ou ouvido falar de alguma obra teatral ou performance criada por uma mulher indiana. Este planeta que habitamos tem mais de 190 países, inúmeras culturas diferentes e mais de sete bilhões de pessoas. Ver obras artísticas de mulheres de outras nacionalidades é algo que me interessa muito. A Índia, especialmente, é uma país que me intriga pelas relações espirituais e culturais estabelecidas no lugar, por imaginar que ele seja diferente da visão estereotipada que construímos e por ser conhecido pelas violências impostas às mulheres.

Na encenação, nos deparamos com o corpo de uma mulher indiana nua, a própria Mallika Taneja que concebe e atua na encenação, que aos poucos vai vestindo inúmeras peças de roupas coloridas enquanto discorre sobre o qual importante é uma mulher “ter cuidado” e responsabilidade sobre seu próprio corpo a fim de que ele não seja violado, por vezes comparando a fatos naturais esdrúxulos. Como por exemplo, se existe uma panela no fogo, você não vai tocar nessa panela porque sabe que vai se queimar, certo? Logo, porque uma mulher sairia na rua depois das 18h, sozinha, com determinadas roupas? É a mesma lógica, certo? Obviamente, que todo o texto é carregado de forte ironia e proferido por Mallika de modo descontraído, convidando o público a ser cúmplice de tudo o que é dito. Convocando o riso, ela também instaura certo conforto no discurso e em quem o ouve, embora saibamos que não há nada de confortável em tudo isso. A compulsão pelo protecionismo é tão intensa, que a performer começa a vomitar as palavras em inglês com sotaque indiano, até que não haja mais entendimento, enquanto as roupas vão se acumulando sobre o corpo até que não haja mais nenhum centímetro de pele à mostra. Agora, ela está protegida, certo?

É inevitável olhar para o corpo de Mallika e não lembrar de todas as histórias de violência contra a mulher na Índia que já ouvimos por aí, desde mutilações, torturas a estupros coletivos. Mas, o discurso da artista, também ativista feminista, não está tão distante de mulheres de outras culturas.

Lembro do vídeo feito pela viajante brasileira Luísa Moraleida, onde ela revela ser constantemente questionada por escolher viajar sozinha pelo mundo, “você vai sozinha?”, “e se algo acontecer?”, você não deveria se expor dessa forma!”, enquanto mostra paisagens incríveis registradas por seus olhos e pelas lentes da sua câmera. Mallika nos faz lembrar de como os discursos do “tenha cuidado” proferidos por pais, tios, irmãos, companheiros e até mulheres próximas sobre as vidas/escolhas de outras mulheres são aliados na construção de uma objetificação do corpo e cerceamento das nossas existências. O discurso do “tenha cuidado” vem acompanhado de pensamentos e práticas impositivas sobre o que vestimos, o que fazemos, em que horário fazemos e com quem fazemos. Parte do pressuposto que o corpo da mulher sempre será vulnerável ao impulso masculino de violação e, portanto, deve ser protegido por outras figuras masculinas que a rodeia. A princípio, ouvir um “tenha cuidado” ou uma proibição de saída de alguma figura masculina pode soar como uma medida preventiva e até um gesto de amor. Devemos lembrar que essas atitudes reforçam o sistema machista, a cultura do estupro e a compulsão violenta de corpos masculinos. Enquanto entendermos que nossas existências devem ser aliadas do medo, que precisamos ser protegidas e que não podemos estar no mundo de qualquer forma, estaremos colaborando com o pensamento de que somos objetos.

Diante da multiplicidade de mulheridades e das diferenças de opressões vividas por mulheres de diversas raças, classes, orientações sexuais e definições de gênero, há algo em comum em todos os corpos que se compreendem mulher que é a objetificação do mesmo. Obviamente que essa objetificação se dá de diferentes formas em virtude das questões já citadas, no entanto, o esforço de colocar a mulher como uma marionete a serviço da estrutura patriarcal e capitalista é um projeto a ser amplamente questionado e transformado.

A obra “Tenha Cuidado” tem circulado mais por outros países do que na própria Índia, em virtude da temática. Embora a encenação tenha uma construção muito simples, quase se constituindo como uma performance onde o ato de se vestir compulsivamente acompanha o discurso e reflete a ação de “proteger-se”, a importância política da presença do corpo de Mallika em cena e sua voz são essenciais para o teatro. A artista instaura sua potência e questiona a responsabilidade sobre os atos de violência à mulher.