10/03/2020 - Por Heloísa Sousa

[Como nos perturbam as histórias perturbadoras...]

São Paulo, 10 de março de 2020.

Um depoimento crítico.

Saio do Itaú Cultural após uma palestra de Olivier Neveux sobre seu livro “Contra o Teatro Político”. Entre as muitas questões discursadas, lembro de ser afetada pela fala de que o teatro poderia produzir mais “ausências” ou “vazios” que permitissem ao público compor junto ou sugerir suas próprias percepções políticas sobre a obra e a realidade, ao invés de apenas criar espetáculos que parecem querer nos ensinar algo ou nos dizer como deveríamos agir, em certa “catequização” e que coloca o artista é um pedestal de detentor do saber inquestionável e salvador.

O cansaço pesa no meu corpo, fico me questionando se realmente devo seguir para o teatro ou se não vou me divertir um pouco nessa cidade pesada, curtir minha solidão, não sei. Decidimos ir. Juntamos mais dois amigos e seguimos a pé até o Teatro Sérgio Cardoso. Cerca de vinte minutos andando. Vemos a cidade anoitecer. No caminho, um amigo fala que alguém disse que esse espetáculo não era bom, apenas um homem falando com alguns bonecos e nada de interessante. Merda. Chegamos ao local, meus amigos não conseguem ingressos, esgotado. Consigo minha cortesia pela Farofa Crítica e entro sozinha no teatro.

O Teatro Sérgio Cardoso tem algumas salas de apresentação diferentes. Essa que adentramos é pequena, me lembra muito o antigo Barracão Clowns. Saudades. Poucas pessoas, proximidade, vemos o palco de cima pra baixo.

Na área cênica, quase nada. Aquele chão preto de sempre, iluminação normal, branca, sem nenhum efeito ou elaboração. Um homem francês sentado em uma cadeira simples no meio do espaço, do seu lado esquerdo um aparelho de som daqueles antigos e portáteis, do seu lado direito uma bolsa grande de viagem esverdeada. Ele usa coturno, uma calça jeans, um moletom preto escrito JERK e tem um cabelo meio comprido e lambido. Um homem um pouco mais velho, talvez uns trinta e pouco ou quarenta anos. Todos sentados, recebemos um fanzine [publicação não profissional de ficção científica ou algo do tipo] com dois textos em francês e umas ilustrações. Um material bem bonito. No meio, folhas de papel ofício com a tradução.

Entendam. Pode parecer meio chata essa descrição, mas tem experiências cênicas sobre as quais não sei discorrer bem ou elaborar grandes discursos, então prefiro me ater as memórias do que vivi.

O espetáculo começa. Ele tem duas partes, seguindo a ordem dos dois textos que recebemos. Primeiro, temos que ler um texto, a cena se desenrola, em seguida lemos o segundo texto e o espetáculo tem sua cena final. O ator Jonathan Capdeville interpreta David Brooks, um jovem cúmplice de Dean Corll e Elmer Wayne Henley. Na história escrita pelo americano Dennis Cooper, baseada na vida real desses três jovens, Dean Corll é um famoso seria killer norte-americano que com a ajuda de Henley e Brooks chegou a estuprar, torturar e assassinar mais de vinte garotos na cidade de Texas, na década de 1970.

Operando marionetes que interpretam as personagens dessa história e assumindo em seu corpo a figura de Brooks, o ator Capdeville nos mostra cenas desses assassinatos onde todos os envolvidos [vítimas e algozes] parecem buscar prazer, excitação e gozo nessas vivências de dor, tortura e morte.

O ator não sai da cadeira. Lembro da encenação “Cinco Peças Fáceis” de Milo Rau onde o caso de um serial killer pedófilo também é exposto no palco, mas com crianças e adolescentes no elenco. Assim como a presença das crianças no palco, o uso dos bonecos para tratar de um tema como esses causa muito desconforto. Sentar na plateia para assistir “Jerk” é estar diante de um bombardeio de emoções entre o incômodo, a repulsa, a comicidade e a excitação. A obra articula todos esses elementos e faz você se questionar sobre o que está sentindo, ou deveria sentir, desloca suas percepções comuns e cria uma experiência, no mínimo, perturbadora ou “errada”.

A personagem de David Brooks, na prisão, tenta nos apresentar um teatro de bonecos com uma versão dos fatos. Se a encenação não possui grandes elaborações cenográficas e transformações na cena, a história com sua densidade é exposta com maestria pela atuação de Capdeville. Com sua própria voz, o ator varia entre as personagens e ainda projeta sons com alusão a gemidos de excitação ou de dor, saliva e sangue engasgados, grunhidos implorando para que a ação pare. Essa construção do ator é impressionante e colabora para a criação de uma atmosfera de horror, ao mesmo tempo em que nos força a imaginar a realidade para aqueles sons. Em alguns momentos, a saliva do ator cai no chão, um símbolo do esperma jorrado de um pênis, ou de sangue jorrado da boca.

No final, perturbado pelas próprias ações, pelos murmúrios e gritos, David se revolta e mata Dean na tentativa de dar um fim a todo aquele ciclo. Em seguida, liga para a polícia e se entrega.

E é isso. A encenação termina e vamos embora do teatro nessa suspensão. Não há provocações a realidade ou elaborações críticas sobre o que houve, apenas uma exposição dos fatos. Mas, uma exposição longe de ser maniqueísta, deixa ao público a responsabilidade de elaborar qualquer coisa sobre o que se deu, sejam julgamentos ou teorias complexas. A gente não sabe onde enfia a ética, nem o que faz com aquilo. Não sabe bem o que sente, se é raiva ou culpa por ter visto tudo em silêncio, por ter imaginado juntos os estupros, por ter ouvido os gemidos, por ter lido as descrições. Há um mistério e uma revolta sobre o nosso não entendimento do que levam pessoas a serem tão violentas. Também não sei se não somos violentos assim por consciência das leis que regem a sociedade. O impulso da agressividade e o prazer pela dor são mais complexos do que pensamos em nossas elaborações “cristãs”.

Ao mesmo tempo que a obra cria esse vazio que carregamos com a gente muito tempo após a apresentação, reelaborando o que sentimos, o que fazemos diante daquilo e quais discursos não-clichês podemos elencar; o espetáculo também tem uma abordagem muito perigosa, na medida em que pode oferecer a certas pessoas do público um deleite hedonista e masoquista, já que a própria encenação não problematiza em si os fatos. O espetáculo termina naquele limbo de “o que aconteceu aqui, agora?”, algumas pessoas não aplaudem, outras saem antes da peça terminar. Eu fico na cadeira, entendendo que a encenação é muito bem elaborada, mas não sei bem o que eu devo aplaudir. Seria isso um teatro político?

Atualização: É importante destacar como o Dean Corll demorou anos para ser descoberto e conseguiu matar tantas pessoas, simplesmente por ser um homem branco, cisgênero, norte-americano, que trabalhava em uma fábrica de doces. Para outros corpos dissidentes, qualquer mínimo delito é justificativa para um encarceramento e julgamento social extremamente agressivo. A sociedade não condena "criminosos" mas sim os sujeitos que desviam a lógica patriarcal e capitalista com suas existências.