08/03/2020 - Por Heloísa Sousa

[No meio...]

São Paulo, 07 de março de 2020.

Em “Multidão”, a coreógrafa franco-austríaca Gisèle Vienne expõe o conceito de variação em cena. Essa exposição não se dá apenas por uma abordagem técnica de dança, mas torna-se metáfora ao recuperar o sentido mais complexo da palavra. Variação não é apenas mu-dança, como se esse último conceito fosse simplista por si só. Variação é o conjunto de transformações e deslocamentos que acontecem em determinado recorte espaço-temporal. Nesse sentido, a festa techno, que parece se instaurar em cena com a música, os corpos dançantes e as vestimentas casuais, pode ser percebida como um retrato coreográfico de corpos presentes numa realidade em comum. Em uma festa, pessoas pisam o mesmo chão, escutam a mesma batida e se cruzam, sem necessariamente estabelecer relações ou ainda, sem ter objetivos ou finalidades além da presença em si. Não seria o mesmo na realidade do cotidiano, onde bilhões de pessoas pisam a mesma terra, respiram o mesmo ar e se cruzam, sem necessariamente estabelecer relações ou ainda, sem ter clareza de seus objetivos ou finalidades além da sobrevivência em si?

Mas, para além de uma abordagem crítica sobre as relações humanas, a coreógrafa nos faz acompanhar uma exposição das nossas variações e nos oferece a contemplação e o envolvimento com os corpos, a partir da pulsação do som e das dramaturgias que surgem em decorrência dos encontros entre as personas em cena. No palco do Auditório Ibirapuera, um chão de areia preta com restos de lixos inorgânicos, quinze intérpretes adentram o espaço lentamente enquanto a música eletrônica invade o teatro em consonância com a luz. São pessoas vestidas com roupas que parecem tiradas do guarda-roupa dos próprios intérpretes, a maioria em tons claros contrastando com o espaço, aos poucos, pele à mostra, tatuagens. Na paisagem instaurada, esses corpos parecem viver seu cotidiano normalmente, se cruzam, se cumprimentam, abraços e beijos, alguns brigam, discutem, se batem, algumas piadas, brincadeiras, risadas, gestos de consagração, vestir, despir, quedas. A dramaturgia é extremamente delineada e uma sucessão de situações se desenrolam diante dos nossos olhos, mas para além de uma variação de relações e deslocamentos, somos apresentados a uma variação de ritmo que se desvia das abordagens convencionais de lento e rápido.

Na maior parte do espetáculo, os corpos desobedecem ao ritmo frenético da música e o código de lentidão estabelecido pela coreógrafa, onde as pernas parecem adiantar-se demais em relação aos corpos, aparenta divergir do andar cotidiano, mas no ritmo proposto cria uma imagem perfeita de suspensão temporal. Em contrapartida, quando os corpos aceleram, eles se permitem pulsar mais intensamente ao invés de apenas seguir o frenesi da música. E é justamente essa variação rítmica que configura a obra na linguagem da dança, visto que a nossa percepção sobre os movimentos e ações cotidianas são deslocadas por essa qualidade.

É inevitável não realizar um paralelo entre esse trabalho de Vienne e o espetáculo “Exit” com dramaturgia do coreógrafo potiguar Alexandre Américo. As duas obras parecem evocar uma festa, com música eletrônica envolvente e corpos que desobedecem e intensificam a pulsação gerada pela sonoridade. Se o espaço imaginado parece se assemelhar, a construção imagética sobre as obras se diverge quando "Exit" busca um espaço mais psicodélico onde o público é atingido pela sensorialidade, enquanto Vienne traz uma abordagem mais realista com uma luz branca que evidencia os corpos como eles são. Mas, é na elaboração dramatúrgica sobre a obra em dança que os dois coreógrafos se aproximam. Segundo Américo, suas obras buscam situações coreográficas para composições em dança, ao invés de partir de uma memorização de sequências de passos, o que abre espaço para a experimentação da dança enquanto linguagem de fato, onde qualidades de movimento são exploradas a fim de que o intérprete possa comunicar em cena a partir do seu corpo sem o artifício da fala. Essas situações são escancaradas na obra que integra a programação da MITsp 2020 e as lógicas dramatúrgicas não surgem ao acaso da improvisação, ao contrário, são elaboradas enquanto montagem e encenação.

Se em Vienne a multidão é paisagem, em Américo a multidão é vivência. Escrevo isso ao lembrar da apresentação de “Exit” no Beco da Lama (Natal/RN), dezenas de pessoas amontoadas em uma encruzilhada estreita, som alto, montanhas de cabeças e corpos dançando nesse meio, a música cria uma atmosfera de envolvimento onde todos, artistas e público são implicados naquela situação. Enquanto no palco, a obra de Vienne se torna uma paisagem a ser contemplada. Nesse caso, a multidão não é coro e há uma ênfase nas individualidades. É sempre possível escolher entre olhar o todo ou observar os sujeitos individualmente, correndo o risco de perceber repentinamente que algo aconteceu ao lado e você não notou.

Em "Multidão", mesmo com muitos corpos em cena dançando e concentrando as atenções do público, ainda assim, a coreógrafa não deixa de sugerir imagens potentes e abrir espaço para que outras materialidades dancem também. A iluminação precisa de Patrick Riou tem seu momento de dança quando se move enquanto os corpos param; fumaças se projetam das personas no mesmo ritmo lento que estes dançam, enquanto líquidos espirram de garrafas na mesma pulsação de quando os corpos aceleram. As ações de vestir-se e despir-se também revelam outras nuances e o cuidado em fazer a vestimenta chegar ao chão denota uma tentativa de controlar a ação da gravidade sobre os objetos.

No meio do espetáculo imaginei a dificuldade que seria encerrar a obra. Como dar fim a uma experiência instaurada em fluxo, onde não há finalizações, resoluções ou objetivos a serem alcançados? Nesse sentido, penso que a obra pedia uma suspensão no final, mais do que uma saída circular.

“Multidão” é uma obra coreográfica também sobre agrupamentos, empatias e estranhamentos, necessidades de estar junto ou não, territorializações. Há um significado peculiar em assistir a esta obra sendo uma natalense morando em São Paulo há cinco dias. Multidões também produzem isolamentos, sensação de não pertencimento. Eu, sentada em uma cadeira do enorme Auditório Ibirapuera, olho para todos os lados e não reconheço nenhuma das dezenas de rostos que estavam ali. Estou fora do eixo. A sensação evocada na obra de Vienne já estava em mim antes mesmo do espetáculo começar.