28/12/2019 - Por Heloísa Sousa

[Sem Título]

“A Ida ao Teatro” é uma das primeiras montagens do Grupo de Teatro Facetas, Mutretas e Outras Histórias (RN). Inspirada no texto homônimo do dramaturgo e comediante alemão Karl Valentin, o grupo potiguar traz para a programação do FICA Natal 2019 uma obra estreada em 2007, mas que sempre se manteve em seu repertório. Em cena, vemos a história de um casal, interpretado por Ênio Cavalcanti e Rodrigo Bico, que ganha ingressos para assistir a um espetáculo de teatro. Ao tentar se preparar para sair naquela noite e prestigiar uma obra, o casal acaba se envolvendo em uma série de crises, confusões e dilemas cotidianos e comuns que os desviam do foco e abordam situações absurdas que revelam uma vida tediosa em casal.

Se os textos cômicos de Karl Valentin, que inspirou grandes artistas, de Charles Chaplin a Bertold Brecht, sugeriam estruturas surreais que evidenciavam os ridículos da burguesia alemã, fazendo-a rir de si mesma; a encenação do Grupo Facetas e sua reapresentação mais de dez anos após a estreia, revela uma obra estereotipada e datada que parece ter como objetivo o riso fácil da plateia e um divertimento superficial. Há uma linha tênue entre a provocação do riso que sugere ironias, reflexões transgressoras e desestabilização das convenções sociais e a provocação do riso que gera comodidade e identificação do público com um formato que apenas o diverte sem provocá-lo. E podemos pensar que, no atual contexto político, social e cultural que vivemos, há muito a ser provocado.

O texto original de Karl Valentin parece fazer sentido dentro do contexto alemão da primeira metade do século XX. Em 2019, a encenação dessa obra, utilizando recursos cômicos previsíveis como a ridicularização da figura feminina interpretada por um ator com fortes traços masculinos, a satirização da relação matrimonial reduzida ao tédio fatal e a provocação do caos cênico com objetos atirados no espaço, apenas constrói uma obra que reforça estereótipos de um casal e reforça uma estrutura imagética previsível e aceitável pela sociedade, sem a provocação reflexiva do qual o riso é capaz. Se as obras de Valentin estavam fortemente relacionadas ao contexto político ditatorial que este vivia, a encenação do Grupo Facetas parece estar completamente distanciada do nosso contexto, o que gera também o questionamento sobre o sentido de se apresentar uma mesma encenação por mais de dez anos. Se o eixo curatorial do FICA Natal 2019 busca conectar obras que representam a resistência do teatro natalense e que possuem forte cunho político, a inserção de “A Ida ao Teatro” do Grupo Facetas parece contradizer essa proposta, ainda mais quando o grupo tem em seu repertório obras mais atualizadas e que representam melhor a potência cênica e de discussão política do grupo como a montagem “A Jornada de um Imbecil até o Entendimento”, texto de Plínio Marcos.

“A Ida ao Teatro” não problematiza nem a relação do público com o acesso ao meio teatral, nem as relações humanas de um casal. A encenação apenas usa a ida ao teatro como pano de fundo para um encadeamento de situações cômicas onde o casal briga por coisas banais e revela fatos de sua convivência de forma descritiva e superficial. O público ri. Ponto.

Mesmo com a atuação consistente de Rodrigo Bico na construção de uma corporalidade que revelava uma personagem masculina animalesca e infantilizada, a obra recorre a um cenário simplista e certas estratégias de construção do caos que beiram o descontrole, sendo inevitável não achar que alguém vai se machucar durante a cena, uma percepção que não colabora com a compreensão da obra. Ressalto a necessidade de atualização e reflexão sobre as modificações dramatúrgicas sugeridas pelo grupo na peça. Em determinado momento, a personagem feminina interpretada por Ênio Cavalcanti, abraçado ao seu marido, fala, com a intenção de provocar comicidade: “Pensei que você era trans”. O público ri. E isso não é engraçado. A proposta transfóbica apenas enfatiza uma obra que não se deixou permear pelas práticas e discussões atualizadas que exigem uma outra ética, política e estética diante dos corpos e existências marginalizadas e chacinadas pela sociedade.

Artista e obra de arte são reflexões de seu tempo, atualizações contínuas de uma realidade, provocação de sistemas sociais. Repensar nossos fluxos criativos e o sentido de colocar no palco o que criamos, estando sempre alerta as possibilidades de recepção que provocamos é uma atitude necessária e ética diante do fenômeno teatral.