27/12/2019 - Por Euler Lopes

Ser nordestino: uma questão de alteridade.

Há duas coisas entre tantas, que me fascinam nos espetáculos do grupo Carmim: o apelo à ironia e o uso da metalinguagem. Embora  A invenção do nordeste tenha sido o segundo espetáculo que assisti do coletivo; é notória a presença dessas duas características que são, inclusive, pré-requisitos para uma  obra contemporânea. Aqui, considero contemporâneo, o que o Agamben define como “aquele” que na escuridão do seu tempo sabe enxergar a obscuridade. O espetáculo do Carmim é contemporâneo nesse sentido, de reconfigurar em meio aos tempos sombrios de agora, o debate sobre o que vem a ser nordestino, e paralelamente, sobre o que vem a ser brasileiro.

Por remeter ao livro de Durval Muniz Albuquerque Júnior, o grupo já encara uma grande responsabilidade. O texto dele tem sido lido e relido em diversos ambientes, principalmente os acadêmicos, sendo grande referência em diversas dissertações e teses, elucidando sobre a nossa própria compreensão sobre a identidade – ou alteridade – nordestina. Há dois pontos nele que guardo na memória que sempre me fazem refletir quando o tema Nordeste vem à tona: o primeiro, sobre como ele foi de fato inventado, na perspectiva de que o que vem a ser conhecido como território e o ser nordestino são construções, até mesmo ficcionais, da mídia e da literatura produzidas no Sudeste; e o segundo, sobre como houve uma necessidade de caracterizar o Nordeste como espaço de violência antepondo ao progresso prometido em São Paulo. O Grupo Carmim consegue dilatar o horizonte ao refletir sobre como o artista no Nordeste enfrenta esses estereótipos impostos, e diante de outras dificuldades comuns a todos, ainda tem que se desvencilhar daquilo que se espera dele.

A montagem de A invenção do nordeste traz um teste de elenco entre dois atores do Nordeste, competindo sob o olhar vigilante e impaciente do Diretor para interpretar um personagem nordestino. Ao longo desse processo, temos um debate sobre toda a projeção imposta sobre o que é esse território e sobre as pessoas que vivem nele.  Por meio de uma construção pautada na metalinguagem, o espetáculo estabelece um pacto com o espectador de que o jogo teatral acontece às claras e toda a dinâmica da construção da obra teatral acaba sendo compartilhada com o público. Penso que nesse espetáculo especificamente, essa dinâmica se aprofunda na presença da figura do diretor enquanto personagem condutor da narrativa e no fato de todo o enredo tratar-se de um processo de investigação dos atores. A busca dos personagens-atores por encontrar  "um típico nordestino", o manejo das cenas, apresentando sua tessitura e seus segredos, revelam que no lugar de magia, no fazer teatral, há trabalho. E é exatamente sobre entender os processos de construção teatral vivendo e sendo um artista no Nordeste o que mais toca no espetáculo.

Se em cena, vemos três atores homens discutindo sobre tudo isso, é encantador saber que há uma mulher na orientação da montagem. Num espaço ainda majoritariamente masculino, a existência de Quitéria Kelly acaba sendo um local de resistência quando se trata de direção teatral, um espaço que merece ser enaltecido e multiplicado.

A ironia na forma como o espetáculo brinca com os estereótipos nordestinos é de um humor que causa em nós, público, até certo incômodo. No transcorrer do espetáculo, eu não sabia se ria da projeção de nordestino imposta a mim, ou se ria de coisas que me são caras e me cercam enquanto pessoa que vive no Nordeste. O jogo irônico é sempre um risco, pois se por um lado ele te dá garantias de boas risadas, por outro, ele te arrebata por esfarelar certezas cristalizadas até então. A ironia tem o poder de recontar algo, desviando daquilo que já foi tido como fixo; no caso, sobre o ser nordestino. Mas, a ironia nem sempre é explícita, e isso exige do espectador um exercício ainda mais profundo: o de pensar com calma. Por isso, é importante ao assistir A invenção do nordeste, entender que o espetáculo não fala da nossa identidade nordestina – ou seja, aquilo que nós identificamos como nosso – mas sim, da nossa alteridade nordestina, aquilo que o outro definiu que é nosso.

Ao assistir ontem A invenção do Nordeste, me lembrei de outro espetáculo que assisti em maio em São Paulo, o Cangaceiras, guerreiras do sertão, um musical aclamadíssimo por lá que ficcionaliza a história de um bando de cangaceiros dando o protagonismo da libertação do cangaço às mulheres. Nesta obra os estereótipos do Nordeste e do nordestino estão presentes e são reafirmados – inclusive, figuram como espaço de violência. O jogo estabelecido pelo Carmim, é muito mais inteligente, por profanar esse estereótipo, dando para gente a responsabilidade do que fazer com ele. Deixando que escolhamos se seguimos vestindo essa alteridade, se apenas rimos dela, ou se resistimos a esse olhar do outro.

A oferta dada aos atores no fim do espetáculo, o de aceitar uma proposta lucrativa, mas que não atinge os seus desejos, é a oferta que temos após assistir a obra teatral. Ou seguimos aceitando o que nos impõe ou desviamos dessa representação seja com ironia, com resistência, ou com o melhor que sabemos fazer, nossa arte.