13/04/2019 - Por Heloísa Sousa

[Quando a veia jugular interna sangra...]

Querida leitora,

Abra outra aba ao lado desta onde você está lendo esse texto, neste exato momento. Direcione-se ao google.

Digite: Judith decapitando Holofernes.

Provavelmente o google vai tentar te direcionar para o quadro pintado pelo italiano Caravaggio em 1599. Ignore. Ou olhe em outro momento.

Corrija o google e mostre a ele que, na verdade, você deseja ver o quadro pintado pela artista italiana Artemisia Gentileschi, uma das pintoras barrocas mais notáveis de sua época. Aprecie.

Se tiver um pouco mais de tempo, faça um contraste entre a expressão da Judith pintada por Gentileschi e a pintada por Caravaggio. Aproveite e leia um pouco sobre a história da artista, outras obras que ela pintou e seu posicionamento diante de sua própria condição de mulher no mundo das artes.

Deu certo? Retornemos ao texto.

“Lobo” é um dos mais recentes trabalhos da multiartista brasileira Carolina Bianchi. Cruzando referências e experiências da performance, do teatro, da dança e das artes plásticas, Bianchi vem criando vivências subversivas e gerando obras artísticas que tensionam as relações entre os corpos, o erotismo e a violência. E obviamente, que tudo isso não poderia estar dissociado de construções sociais diferentes quando aplicada aos corpos, em suas especificidades de gênero.

Bianchi reúne em cena dezesseis homens e cria uma encenação onde ela mesma é uma figura central, desenvolvendo cenas como sendo quadros ou fotografias em movimento, que desperta o público tanto pela beleza agressiva das imagens quanto pelo potencial de desconstrução que carrega. Ela dirige, atua e escreve a dramaturgia de “Lobo”, além de ter feito a pesquisa sobre a trilha sonora e colaborado com a criação dos figurinos.

Mulheres que trabalham como artistas, geralmente se deparam com a ausência de referências de outras mulheres em suas pesquisas, principalmente se estas passaram pela formação acadêmica tradicional que tendem a destacar autores, pesquisadores e artistas homens e brancos, contribuindo com uma centralização das epistemologias nos corpos que ocupam o topo da hierarquia social. O reconhecimento dessa ausência nos provoca uma urgência em se aproximar de outras mulheres [atentem para a multiplicidade de mulheres – negras, brancas, trans, cis, etc.] e construir outros atravessamentos, propondo experiências estéticas que possam subverter as normatividades artísticas. É isso que Carolina Bianchi faz quando cita em seu espetáculo Emily Dickinson, Mary Shelley e Artemísia Gentileschi, se deixando afetar pela capacidade dessas mulheres em lidar com a agressividade, o sofrimento e a monstruosidade. Construindo ainda uma camada de resiliência, aproximando o riso e o espanto, a realidade e a artificialidade.

Dezesseis homens adultos, jovens, com corpos que satisfazem o padrão de beleza convencional são dirigidos por apenas uma mulher e coadjuvantes de toda a encenação. Suas poucas falas são controladas por Bianchi e seus corpos sempre despidos servem a contemplação e a construção das imagens. O suor que escorre pelas costas, pelos cabelos, pelas pernas cabeludas, pelo pênis, causa repulsa – ou atração, recupera a sensação do cheiro de corpos exaustos pelo cotidiano, pela correria, pelo sexo. A saliva compartilhada é um gesto de doação, mistura e contaminação. Estar próximo é necessário e perigoso.

Se os homens estão sempre despidos, Bianchi transita entre figurinos bonitos e com cores que se destacam no espaço. Ela parece interpretar diferentes personagens das narrativas desgastadas de Hollywood, mas que com uma dramaturgia irônica transitam de figuras curiosas e amantes para pistoleiras e vampiras que matam e re-matam, ressuscitam e brincam com os demais corpos, como se esses fossem bonecos articuláveis. Tudo é falso e é exposto a partir da própria artificialidade, o sangue, as tripas, as armas. “Lobo” é um deleite estético, um orgasmo divertido, uma inversão de papeis sociais, uma desconstrução de propagandas enfadonhas, um “deus[a] me livre, mas quem me dera”...

Se cada cena é um quadro, essa ideia só se torna possível pelo pensamento em torno das cores, posições e texturas na obra. A construção impecável da visualidade traz contrastes exatos de luz e sombra que remetem a uma iluminação barroca percebida nas pinturas de Gentileschi. O uso do vermelho na vestimenta e no sangue que jorra e respinga no público traz autoridade ao corpo que o veste e simboliza amor e ódio simultaneamente. Apesar da exposição dos artifícios de cada cena, desde a caixa de vidro que desliza sobre o palco até a raposa de pelúcia que fala conosco; esses recursos não fragilizam a construção das imagens na obra, ao contrário, reforça a teatralidade e torna Bianchi uma articuladora dessas materialidades, outrora pensamentos e imaginações de uma mulher e cruzamento com outras. Se toda a cena colabora com essa ideia, a projeção na parede do teatro enfraquece. O vermelho saturado com letras brancas em uma fonte comum de Word parecem se distanciar de todo o cuidado que foi aplicado ao restante da obra. Com a função de narrar trechos, destacar mudanças e títulos de cenas, a projeção acaba assumindo um lugar frágil por se mostrar de um modo visto com certa frequência no teatro.

Se me questionarem sobre do que se trata “Lobo”, acho que eu não saberia responder. Ou melhor, não tenho interesse em responder. A imagem tem um potencial de construir imaginários e deslocar discursos através da apresentação de outras formas de perceber os retratos do mundo. Pode ser estratégia de manipulação, mas também pode sugerir outras realidades através da presença de corpos orgânicos e inorgânicos dispostos de modo a subverter a lógica vigente. “Lobo” é uma encenação visual, que se debruça sobre a presença dos corpos em estados de [des]conforto, que brinca com os objetos e nosso imaginário, sem deixar de explorar a dramaturgia em suas possibilidades poéticas e interativas.

Também não é suficiente pensar em “Lobo” como uma encenação feminista, o feminismo é muito mais uma prática social do que apenas uma articulação de discursos ou símbolos. Obviamente, que toda a discussão emergente sobre este assunto que tem sido veiculada em diferentes meios, nos faz olhar a presença do corpo feminino em vários espaços a partir de outra ótica. Com “Lobo” não seria diferente, no entanto, Bianchi não articula uma promessa de um novo mundo para mulheres ou ergue qualquer bandeira sobre determinadas realidades que não deveriam ser operadas; ao invés disso, ela dá a si mesma o direito de explodir a cena, de brincar com o proibido, de profanar sua própria imagem e de se ver deusa de sua própria arte, não ignorando seu lugar de privilégio social.

Palavras em um texto publicado na internet, em livros ou qualquer outra plataforma não são dignos de transmitir a experiência estética dessa encenação. “Lobo” precisa ser vivido, de corpo olho aberto.