28/11/2018 - Por Heloísa Sousa

[Bruto, rústico e sistemático]

Atenção: O texto contém contém descrições de cenas (spoilers).

“Pelo Pescoço” é, originalmente, uma exposição de quadros criada pelo artista visual Daniel Torres e inspirada no caso de duas mulheres mortas – pelo pescoço – no interior do estado do Rio Grande do Norte. Esses casos de feminicídio fizeram o artista criar imagens antropozoomórficas onde corpos de mulheres possuem cabeças – e pescoços – de girafas, assumindo ainda situações de opressão, violência ou resistência. A partir dessa exposição, Daniel Torres propõe uma instalação artística e desenvolve a criação de um espetáculo em parceria com a bailarina e coreógrafa Ana Claudia Viana. Na obra cênica em questão, que leva o mesmo título da exposição, a artista da dança se relaciona com os objetos instalados, modifica-os, assume a cabeça-pescoço da girafa em alguns momentos e problematiza situações da representação do corpo feminino e das violências impostas contra esse. Esse outro formato de “Pelo Pescoço” é denominado pelos artistas criadores como sendo uma instalação cênica.

Desde que as urgências políticas, revolucionárias e transformadoras invadiram as artes; os suportes e as mídias em que as mesmas se manifestam passam a ser questionados. A liberdade criativa ultrapassa qualquer tipo de barreira e a arte se intensifica como lugar de experimentação de múltiplas formas de expressão e sugestão. Saindo de um campo de conhecimentos técnicos limitados, ela ironiza a si própria, foge das instituições ou realiza ocupações desviadas, tornando-se uma experiência crua e potente de vivência e de ressignificação das relações cotidianas. Tudo é percebido em dimensões micro e macro, virado ao avesso e explodido nos corpos. Ainda há espaço para a arte formatada, tradicional e que atende aos desejos – por vezes midiaticamente manipulados – de uma parte do público. No entanto, essas manifestações coexistem e celebram os conflitos, as contrariedades e as oposições, nem sempre em diálogos éticos e saudáveis, mas ainda assim emergenciais. 

As linguagens artísticas são múltiplas e passíveis de serem reinventadas. Ao pensar a linguagem da instalação artística pressupõem-se uma necessidade de criar espaços/ambientes com objetos/corpos instalados seja na galeria ou em qualquer outro espaço transitável. A obra passa da dimensão de um objeto pequeno e apreensível pelo olhar de modo integral, para uma situação de experiência e experimentação que modifica nossa relação com a arte, com o espaço e com nós mesmos. A perspectiva pictórica da tinta sobre um quadro não é mais suficiente para alguns artistas, no entanto, mesmo quando essas fronteiras são ultrapassadas, as dimensões de cores, formas e linhas ainda existem e adquirem outras maneiras de expressão e recepção.

Criar uma instalação cênica seria mais uma possibilidade de atravessamento e experimentação. Podemos lembrar o artista brasileiro Tunga e a sugestão do termo instauração para falar sobre a criação de uma performance que atravesse uma instalação, permitindo vestígios na obra. Mas, no caso do trabalho em questão nessa crítica, há a proximidade entre a instalação artística criada por um artista visual e a possibilidade de relação corporal proposta por uma bailarina para o ambiente criado. Esses não são os únicos atravessamentos na cena de “Pelo Pescoço”, existe ainda a própria exposição de quadros, a iluminação e a trilha sonora compondo toda a experiência estética do público. A única ausência seria da interatividade corporal desse público com a instalação cênica em si, elemento relacional comum a outras obras dessa mesma categoria.

A preocupação com a composição visual da cena tem sido perceptível nas obras de alguns artistas em Natal, seja através de parcerias com artistas visuais, do interesse pela ideia de existir uma direção de arte ou direção de imagem no processo criativo ou ainda quando se propõe a abertura a qualidade performática que por si só, já implica uma aproximação com outras linguagens, entre elas as nomeadas como “visuais”. A experiência cênica não diz respeito somente ao apelo à imaginação através das palavras ou das narrativas, nem às construções ritualísticas de uma relação energética pela simples presença dos corpos. Nós somos corpos em relação, com o outro, com o espaço, com o tempo; e nossa percepção de nós mesmo é totalmente afetada pelos objetos que nos rodeiam em suas características sensoriais. Além disso, a compreensão das simbologias e afetos que o objeto produz sobre os corpos, as crenças e os discursos são materiais potentes para as encenações contemporâneas. A percepção dessas questões que eu destaquei é evidente no trabalho de Daniel e Ana Claudia, o que tornam a obra necessária e sugestiva.

Enquanto Daniel Torres cria um espaço com elementos realistas, inundado pela cor branca entre uma galeria e o interior de uma casa; Ana Claudia Viana cria uma dança que se apresenta através de modos de posicionar os objetos, de criar quadros e de sugerir opressões, utilizando a si mesma como “objeto” de composição e ressignificação do espaço. Neste sentido, a hierarquia comum entre corpo e objeto é questionada. Apesar de não parecer trabalhar com a técnica da improvisação em tempo real, a obra também lembra as proposições do artista português João Fiadeiro como referência estética.

O corpo-girafa-objeto de Ana Claudia não consegue sair de casa – fala quase nada também – e se mantém presa organizando este espaço em branco. Enquanto aparenta sofrer “sutilmente” com silenciamentos, rotinas e falta de possibilidades – violência doméstica – ela se mantém exatamente no mesmo lugar. Ninguém se importa com o que ocorre entre quatro paredes. Quantas mulheres não duvidam da sua própria condição de violentadas por perceberem a naturalização dessas situações.

A cabeça da girafa acoplada à cabeça da bailarina cria um misto de função entre ser uma cabeça e ser uma máscara, que talvez prejudique a percepção de alguns espectadores. A presença de orifícios expressivos para os olhos e o nariz da bailarina desviava o foco do meu olhar. Passei mais tempo observando esses orifícios do que os olhos “reais” da girafa no topo da cabeça. A figura ganhou uma dimensão tão alongada que pareceu ir para além da minha capacidade de apreensão visual. Apesar disso, a iluminação criada por Camila Tiago e Leila Bezerra exerce a função de nos trazer o desenho perfeito da girafa nas sombras projetadas nas paredes e isso contempla as intenções da obra.

Apesar da construção visual impecável de Daniel Torres – percebida pela escolha das cores, das dimensões e texturas dos objetos e da disposição deles no espaço – e da presença cênica marcante de Ana Claudia Viana que se move com exatidão e com intenção de comunicação para além das capacidades técnicas, parece haver algumas lacunas dramatúrgicas que poderiam conectar as duas potências criativas, superando alguns experimentalismos na relação corpo-objeto. E isto só se configura como uma questão a ser problematizada porque existe uma intenção temática expressada pelos artistas na criação da obra. Nesse sentido, tenho certeza do quanto a obra fala sobre o corpo feminino, mas ainda duvido do alcance da mesma ao tratar, especificamente, sobre feminicídio.

Cada cena traz um período de vivência do tornar-se mulher. Desde a condição de silêncio e disciplina até a sensação de estar protegida acorrentada, de ouvir frases machistas sem pestanejar por ainda estar compreendendo a lógica social imposta, até brincar com outras bonecas, tão inertes quanto ela própria é obrigada a ser. O conflito entre o estar dentro e fora de uma casa, um lar, um ninho onde somos preparadas para não alçar voos, para permanecer e definhar. Por isso, os discursos sobre o corpo feminino, em sua variedade de expressões rotineiras é mais evidente, enquanto que os momentos de revolta, morte e dores mais profundas se apresentem de modo comum com movimentos abruptos e tons avermelhados em uma alusão pouco sugestiva ao ódio.

Destaco a cena final de “Pelo Pescoço”. Simplesmente por ser arrebatadora e por concluir a obra de modo excepcional. A ironia construída na cena dialogando com a afirmação dos discursos impostos gerou em mim, uma identificação estética e pessoal. A Ana-corpo-girafa-objeto se transforma em uma bela mulher com um vaso de planta artificial na cabeça sambando e se equilibrando – em cima do salto, obviamente – de modo estonteante. Ela é um adereço de canto de sala, e ainda de mentira. Um enfeite perfeito. Ereta, organizada e singela. E é assim que ela se retira de cena, andando de bicicleta, de modo absurdo e mágico, quase como um deus ex machina que faz o inesperado se tornar uma forma de esperança.