16/11/2018 - Por Heloísa Sousa

O Capital é Deus!

Quatro atores em cena. Corrigindo. Três atores e uma atriz em cena.

A peça teatral escrita pelo dramaturgo brasileiro Plínio Marcos passou por três versões até chegar ao escolhido pelo Grupo Facetas, Mutretas e Outras Histórias. Na primeira versão de 1960 recebe o título de “Fantoches”, na segunda versão em 1965 é renomeada para “Chapéu sobre Paralelepípedo para Alguém Chutar”, e por fim, sua última versão é de 1968 e recebe o título de “Jornada de um Imbecil até o Entendimento”. Em 2018, cinquenta anos após sua última versão, a peça reestreia em Natal durante a primeira edição do Festival Território Cênico.

Antes mesmo de começar a peça, ao nos depararmos com uma das frases ditas em cena, escrita em uma faixa e pendurada numa cerca, já percebemos que o momento político em que estamos vivendo é um dos mobilizadores do processo criativo desta encenação. Torna-se evidente o porquê da escolha em retomar os escritos dramatúrgicos de Plínio Marcos, um dos autores teatrais mais notáveis do período da ditadura militar brasileira e ao mesmo tempo, um analista tão perspicaz da construção da nossa própria realidade.

As ironias contidas nos títulos sugeridos por Plínio Marcos já nos causam estranhamento e reflexões por si só. Penso que talvez os imbecis, a quem ele se refere na terceira versão da obra, sejam todos nós, o próprio público. Nós que precisamos rever através da arte nossas próprias histórias e cotidianos, para nos forçar a alguma reflexão, transformação, ou qualquer tipo de catarse que nos empurre pra fora da inércia que os meios convencionais de comunicação nos acostumaram. Nós que, muitas vezes, esquecemos ou descartamos a força da revolução e deixamos que ela se perca em um sistema cujas engrenagens se movem por um ideal de felicidade autocentrada e construída pelo deus capitalismo no auge de sua fúria. [Neil Gaiman estava certo, criamos muito mais deuses do que pensamos, e eles ainda estão no meio de nós]. Nos confundimos com Claudio, tio de Hamlet, personagem shakespeariana que precisa se deparar com uma ficção criada a partir de suas próprias atrocidades para conseguir revelar a veracidade e crueldade dos nossos desejos. Arrisco dizer que nós, público, também somos os fantoches ao qual ele (Plínio) se refere na primeira versão da dramaturgia. Não há muita escapatória, somos todos nós ali, representados.

No título deste texto crítico, sugiro o capital como um deus que veio crescendo sutilmente na história da humanidade e reunindo um poder que parece contaminar tudo ao seu redor. Todos os outros discursos e deuses que nos rodeiam parecem se aliar a este maior e reforçar a sua existência através de falácias da felicidade.

Há inúmeros termos e conceitos delineados pela sociologia e que cruzam a arte politicamente engajada, especialmente quando afetada pelo contexto político em que se está vivendo no momento da apresentação. Marxismo, comunismo, socialismo, capitalismo, ditadura, capital, proletariado, classes sociais, poder, fascismo, violência. Esbravejamos palavras complexas se limitando apenas as letras que as compõem e não aos sentidos que elas indicam. Lembro bem de, na época da escola, só ter aprendido o significado da palavra capitalismo em detrimento de todos os outros modelos econômicos [não que estes outros não tivessem sido explicados, mas eram claramente colocados como algo confuso e inapreensível]. Lembro de só ter desenvolvido consciência das reais consequências de uma ditadura de modo instintivo e posterior a esse meu período escolar [não que esse momento não tenha sido abordado, mas a empatia gerada pelos corpos que sofreram não era uma questão]. Lembro bem de memorizar vários momentos históricos, mas não de ser realmente afetada por eles.

A dramaturgia com forte cunho político e carregada de simbolismos não é uma experiência estética simples. A força das palavras ditas e a variedade de personagens exigem do espectador um esforço intelectual de compreensão e apreensão dos sentidos do que é dito. Nesta montagem do Grupo Facetas, as imagens trabalhadas, com ênfase nas posições que os atores e a atriz ocupam no espaço cênico, complementam os diálogos contínuos e rápidos. Essas falas trazem uma narrativa que vai se construindo em uma tensão, até um ponto de explosão trágico; quase como as tragédias gregas, mas aqui o destino e os deuses têm outros nomes e outras ações sobre os corpos, menos míticas e mais materialistas. Ainda assim, a dependência das palavras para construção de uma relação entre a obra e o público pode, em certas circunstâncias, prejudicar a uma expectativa de recepção democrática.

Entre as atuações na montagem, destaco a elaboração de Giovanna Araújo para as duas personagens interpretadas por ela. Com uma construção de partituras corporais e vocais desempenhadas com exatidão e quase “opostas” para as duas personagens que atua, a atriz se sobressai em cena sem exageros ou elaborações fáceis.

Outro elemento de destaque são os figurinos que caracterizam dualidades e complexidades das personagens. Apesar de ser usado como um recurso para permitir que um mesmo ator ou atriz interprete diferentes personagens, acaba também trazendo uma leitura sobre as facetas que cada figura incorpora. As falas carregam um posicionamento político que se confundem entre lutar pelo bem estar de todos ou privilegiar a si mesmo. Mesmo as falas da personagem Manduca, a mais revolucionária entre os que estão presentes naquele espaço, trazem sutis contradições que nos fazem questionar sobre suas intenções. Apesar da conhecida densidade das personagens marginais de Plínio Marcos, por vezes, suas construções beiram certos estereótipos e generalizações que podem soar limitadas, mas que ainda conseguem desempenhar suas funções dramáticas, sugestivas e reflexivas.

Observando a criação da visualidade da encenação, é possível notar que o Grupo Facetas acaba lidando com uma estética da precariedade, nas duas estreias que realizou em outubro deste ano; o espetáculo em questão nesta crítica e a montagem infantil intitulada “Sal – O Menino Mar”. Não pretendo citar essa precariedade como uma estratégia de inovação ou de vanguarda, mas apenas ressaltar o quanto é tornado visível aos olhos do espectador a origem e criação dos muitos dos elementos de cena. Como se víssemos o avesso de uma roupa, ou a costura exposta de alguma blusa antes de vesti-la. Os cortes e o remendo de tecidos dos figurinos, objetos que outrora eram lixos e agora pintados adquirem outros significados, detalhes de cena que parecem precários, quebrados ou esquecidos em algum canto da casa, mas lembrados durante o processo criativo. Essa precariedade não deixa de contaminar também os corpos em cena, quando em alguns momentos parece confuso para o ator Rodrigo Bico interpretar três pessoas ao mesmo tempo e carregar sobre a pele uma caracterização sobreposta na outra. Essa precariedade, essa sujeira, essa esquizofrenia pode parecer fragilizar a obra, mas penso que, ao contrário disso, constrói uma estética da afirmação de uma cena que existe independente dos contextos e dos apoios. Assistir ao espetáculo não deixa de ser um manifesto de alguém que parece dizer que continuará se expressando, que suas ideias continuarão ecoando mesmo que uma bala as atravesse. A ausência do medo, ou talvez a possibilidade de andar de mãos dadas com ele e zombar da sua cara de vez em quando.