26/09/2018 - Por Diogo Spinelli

Você está falando sério ou está de brincadeira?

 

Nos dias 22 e 23 de setembro o espetáculo Guerra, formigas e palhaços foi apresentado na área externa do TECESol, compondo a programação do 1º Festival Território Cênico. O espetáculo, que já percorreu cerca de vinte estados brasileiros desde sua estreia ocorrida em 2013, não era apresentado na capital potiguar desde, salvo engano, novembro de 2016, quando o Grupo Estação realizou uma curta temporada do mesmo para inaugurar sua sala de espetáculos também localizada no TECESol.

A apresentação de espetáculos mais antigos de grupos potiguares que ainda estejam em repertório – como os demais espetáculos do Grupo Estação a serem ainda apresentados nesta edição do Território Cênico, ou mesmo as recentes apresentações de Abrazo e de Nuestra Senhora de las Nuvens, dos Clowns de Shakespeare – permite com que outros públicos entrem em contato com obras sobre as quais muito já ouviram falar, mas que não haviam tido a oportunidade de assistir. Ao menos essa foi a minha impressão ao conversar rapidamente com um grupo de alunos da graduação de Licenciatura em Teatro da UFRN após a sessão do sábado, dia 22. Além da atualização dos espetáculos frente às diferenças de contextos político-sociais existentes entre seu período de estreia e os dias atuais, permitindo novas leituras sobre eles, a apresentação de espetáculos em repertório permite também que sejam despertados novos interesses e possibilidades de parceria entre aqueles que estão mais recentemente se iniciando na linguagem teatral e coletivos com uma produção e uma pesquisa continuadas, como é o caso do Grupo Estação.

A primeira impressão que Guerra, formigas e palhaços fornece ao espectador não vem de uma imagem definida ou de um texto específico; ao contrário, o espetáculo inicia-se através da instauração de uma atmosfera de guerra, caotizada pela soma de barulhos de balões que são constantemente enchidos até estourar, efeitos estroboscópicos, massas de coturnos desgastados que caem dos tetos aos montes, e pelos pedidos de socorro do Soldado 033 e do Tenente 012, que tentam em vão contatar ajuda pelo seu rádio. Únicos sobreviventes de seu pelotão, os dois se vem com suas últimas provisões e se encontram no impasse do que devem fazer: esperar por uma ajuda que não sabem se virá, ou desertar e tentar, sem muitas expectativas, fugir da guerra que os rodeia.  

Neste primeiro fragmento já é possível identificar algumas características que irão nortear a encenação. A primeira delas diz respeito à utilização de inúmeras traquitanas para a geração de efeitos que de alguma forma, em maior ou menor grau, remetem ao ambiente circense, a um clima de magia e de gags, à imagem de um freak showfreak show esse que será reapresentado ao público de forma menotínimica e metafórica apenas muito posteriormente na obra. Outra característica já passível de ser identificada é aquela que diz respeito à influência da linguagem clownesca nas interpretações e na relação estabelecida entre o Soldado e o Tenente. Essa influência, reforçada também pelo texto de César Ferrario, nos permite acompanhar um prazeroso jogo entre as figuras de “Branco” e “Augusto”, antes mesmo de termos em cena a presença de um palhaço propriamente dito, o que irá ocorrer na segunda metade do espetáculo.

A dramaturgia de Guerra, formigas e palhaços nos remete às obras do teatro do absurdo, seja de forma mais direta, como no caso de Picnic no Front, de Fernando Arrabal, ou através do uso de um niilismo permeado por uma perversa comicidade característico de Eugène Ionesco.  Uma das falas da dramaturgia, repetida múltiplas vezes pelas personagens ao longo do texto parece sintetizar o pensamento da obra: “Você está falando sério ou está de brincadeira?”.  E é essa dúvida, ou ainda, esse impasse da contradição de uma guerra ilógica e despropositada, já apresentada na situação do Soldado e do Tenente, que será superlativamente extrapolado com a chegada da grotesca figura de um Palhaço, interpretado de forma magistral por Rogério Ferraz, que assina também a direção do espetáculo. Através de sua dúbia figura, que oras age de forma autoritária com o Soldado e o Tenente, e oras assemelha-se a um palhaço de picadeiro, a figura do Palhaço parece revelar a impossibilidade de tentar compreender ou organizar aquilo que não é passível de ser compreendido ou organizado [a guerra? a sociedade? a vida?].

Há uma densidade filosófica por detrás da dramaturgia de Guerra, formigas e palhaços, que transparece de forma mais clara em alguns dos trechos do espetáculo. Um desses trechos é justamente aquele no qual o Tenente entra em contato com um circo de formigas. Somos convidados a imaginar esse freak show, uma vez que ele é construído em cena quase que exclusivamente através das palavras proferidas pelo Tenente, que segura o circo em uma caixa em suas mãos.

Sendo uma obra aberta e porosa, Guerra, formigas e palhaços permite múltiplas interpretações sobre o que é apresentado em cena. Ao sair do espetáculo deste sábado, fiquei me questionando sobre uma possível leitura para a figura do Palhaço como metáfora para a Cultura. A Cultura que vem caotizar e desestabilizar o sistema, revelar suas falhas e seus absurdos. A Cultura que apesar de apontada em tantos discursos políticos como ferramenta e tábua de salvação da sociedade, é eliminada e cerceada tão logo se revele como uma possível ameaça aos mecanismos que regem essa mesma sociedade.