20/09/2018 - Por Heloísa Sousa

[shame on you]

A menor “crítica” que já escrevi.

Finalmente consegui assistir ao espetáculo “Black Off”. Após passagem por diversos festivais importantes do país, consigo um encontro com esta obra em Belo Horizonte durante o Festival Internacional de Teatro Palco & Rua da cidade mineira. Gostaria de dizer também que este texto já foi escrito e apagado algumas vezes, já desisti e depois voltei atrás. No fim, sinto que não tenho muito a dizer, mas que ao mesmo tempo é tão necessário que este trabalho seja razão de discussões, apontamentos e colocações.

A artista sul-africana Ntando Cele traz para a cena seu alter-ego Bianca White. Uma mulher com peruca loira, pele pintada de branca, luvas, meias e kimono da mesma cor. De sua boca saem uma série de palavras e frases racistas, piadas e colocações que vão desde um preconceito escrachado a algo mais sutil, que por vezes não se percebe no cotidiano, mas que ao ser colocado em um palco traz outras leituras. Bianca White “diverte” o público do teatro, prioritariamente branco, provocando inclusive essa necessidade “branca” de “salvar” os negros. Em um segundo momento, Ntando se despe de toda essa figura e mostra a si mesma. Começa um show de rock, com músicas de letras expressivas e uma banda de três homens brancos suíços acompanhando-a.

“I’m black. But, I’m not here to be black”.

Talvez esta seja a frase mais forte da obra. A que mais ecoa na mente dos espetadores por dias. A que mais aparece em textos críticos sobre o espetáculo. A frase que, inclusive, parece reverberar em outras obras criadas por artistas negras e negros pelo mundo. A situação na qual um corpo é reconhecido não o define. A afirmação política dos lugares de fala, a exposição das incoerências e agressividades vivenciadas nas relações humanas são ações necessárias para engendrar movimentos revolucionários, que questionam as estruturas e propõem novos modos de agenciamentos. No entanto, para além disso, há o direito e a necessidade de ser reconhecido para além dessas leituras restritas por uma cor, uma origem, uma condição, um lugar. Compreendendo a relações culturais como possibilidades e não como prisões domiciliares.

Há tanto para se dialogar. Um texto, na sua quase unilateralidade não é justo com essa urgência. Aceito encontros para cafés.

Eu não tenho uma crítica para escrever sobre “Black Off” (inclusive já existem muitos textos excelentes publicados em diversas plataformas brasileiras de críticas, sugiro que acessem), simplesmente, porque a crítica já foi feita pela própria Ntando Cele de modo tão objetivo, que me parece que falar algo seria redundante. Deixo declarado o desejo de ver espetáculos como esse, entre muitos outros que estão sendo produzidos neste país e que inclusive vem se apresentando no FIT BH, em minha cidade Natal. Pois a experiência estética, neste caso, é a única possível e necessária.

Me envergonho das questões colocadas, me reconheço no lugar da mulher branca criada em meio a esses pensamentos e ações de exclusão, me envergonho das risadas desavisadas no teatro que sugerem uma “superação” do que está sendo posto.

A “crítica” não ficou tão pequena assim.