02/09/2018 - Por Heloísa Sousa

[Anti-Quais-Corpos?]

Dia 18 de agosto de 2018. A Domínio Cia. de Dança estreou em Natal o espetáculo “Anticorpos” com direção coreográfica de Anderson Leão. A companhia foi criada em 2001 no Studio Corpo de Baile, e pensar em um grupo que existe há mais de 15 nesta cidade já é suficiente para gerar um texto. Mas, não é esse o texto que escrevi.

Este ano não tem sido dos mais intensos para nossa cidade, em termos de estreias ou circulações de espetáculos. Esses momentos de (in)fertilidade geram carência e uma sensação de vazio de experiências estéticas que nos movam a criar mais, questionar mais e transformar a realidade que está posta. E apesar disso, a maioria dos poucos espetáculos que assisti este ano em Natal é de dança. O que me faz pensar sobre o tempo dos corpos que dançam em relação aos que fazem outras coisas, que alguns chamam de teatro. Foi com essa carência e essa sede que estive na Casa da Ribeira na data mencionada acima.

“Anticorpos” é um daqueles espetáculos cujo título é uma importante “chave de leitura” e que cuja sinopse torna-se desnecessária mediante a clareza e objetividade estética com que ele se apresenta. A obra se compõe de movimentos pouco abstratos, muitos gestos, ações e paisagens corporais precisas e que falam – sem desconexões ou redundâncias – do momento presente com vestígios apocalípticos.

As ações dos anticorpos são reconhecidas por nós como algo interno, correspondente às tentativas do nosso sistema imunológico de salvar nosso próprio organismo de “corpos estranhos” como vírus ou bactérias, que possam alterar nosso funcionamento biológico normal, saudável e padrão. Na obra coreográfica em questão, esse movimento é tornado metáfora – talvez não tanto, pelo nível de realidade em que se aplica esses movimentos – de ações que se configuram também do lado externo do nosso corpo, nas relações em sociedade. É o reconhecimento das tentativas de um sistema social de aniquilar o que for denominado de “corpo estranho” para nos “salvar” de qualquer desvio de padrão, mantendo nossa sociedade “normal” e “saudável”. No entanto, não somos apenas amontoados de células, mas sim organismos que experienciam, pensam, sentem e necessitam expressar a multiplicidade de corpos possíveis em um mundo.

Neste sentido, os “Anticorpos” que dão título ao espetáculo da Domínio Cia. Dança ganham duplo sentido e podem ser lidos como um movimento contra os corpos – contra­ os corpos considerados desviados.

E esse não é um movimento recente. Estudiosos como Michel Foucault já apontaram as tendências a normatização dos estudos clínicos na medicina ocidental, disseminando pensamentos e práticas de punição de corpos que questionam os padrões vigentes.

“A Clínica domina um saber – legitimado pelo poder científico – de nossa natureza humana, que nos impõe um estado ideal e saudável – normal – de como deveríamos ser e estar no mundo. Se porventura, desviamos o presumido idealizado estado ‘natural’ do qual deveríamos nos apresentar, logo nos assujeitamos ao olhar clínico da medicalização, único capaz de nos reconduzir ao imperativo maior de normalização”. (Larissa Tavira). E quantos corpos desviados vêm sendo punidos e “reconduzidos a normalidade” desde quando a sociedade se entende como tal? Mulheres, negros e negras, indígenas, gays, lésbicas, trans, bissexuais, entre outras variações distintas do padrão homem-branco-hetero-cristão.

Juntamente com essa concepção coreográfica, há uma concepção imagética que coloca esses corpos no limite entre as construções sociais eficientes – evidenciadas pelos figurinos – e esses vestígios apocalíticos como os corpos sujos de terra ou ainda as imagens criadas pelo fotógrafo Ian Rassari para divulgação da obra, mostrando escombros e espaços esquecidos, destruídos, bombardeados. Embora, no meio desses destroços, os corpos sobre-vivam, como bactérias.

A palavra “apocalipse” tem origem grega e significa “revelação”. Embora haja uma carga de “fim do mundo” associada a essa palavra, ela também pode sugerir “revolução”. Vivemos tempos apocalípticos, onde os movimentos “anticorpos” vem devastando sociedades, mas vivemos também uma possibilidade tecnológica de "revelação" dessas práticas e pensamentos castradoras que vem sendo disseminadas há séculos. E isso traz possibilidades de revolução e desconstrução seja pelas artes, pela filosofia, pela sociologia, entre outros.

É importante destacar também, que esses padrões e tentativas de normatização estão presentes na história da arte – da dança ao teatro à pintura à música à qualquer outra coisa considerada artística – quando não havia – e talvez ainda não haja – espaços iguais de expressão para esses corpos dissidentes. E até mesmo o espetáculo “Anticorpos” ainda carrega alguns poucos momentos de virtuosismos e movimentos codificados da dança clássica que parecem destoar da coreografia criada com lucidez sobre o título sugerido. Uma vez me disseram que artistas sobre-vivem de conflitos... com o mundo, consigo mesmo, com a arte.