Farofa Crítica

 

20/03/2018 - Por George Holanda

Variação de percurso

A última estréia do FICA Natal - Festival Internacional da Casa da Ribeira Ano I foi O Torto Andar do Outro, da Cia. Pão Doce, com direção compartilhada entre o coletivo e Marcos Leonardo, que já havia dirigido o grupo em A Casatória c´a Defunta. Nesta nova obra, ainda que o grupo retome algumas características de A Casatória, fica claro o desejo por produzir algo diferente do seu espetáculo anterior, que teve grande sucesso.

O grupo se mantém fiel ao seu trabalho técnico apurado. O gosto por construir uma obra bem cuidada visualmente parece ser uma característica perene do coletivo. O cenário e os figurinos apresentam uma riqueza de detalhes na sua elaboração, se utilizando de referências e materiais encontrados cotidianamente para transformá-lo em matéria cênica, ressignificando-os. Também se destaca o trabalho musical dos atores e suas performances. Estes executam suas ações de forma precisa, ressaltando para o desenho de cena. Assim como em A Casatória, as raízes num teatro popular com teor nordestino continuam presentes, contudo, desta vez investe-se menos no humor.

E aí está o primeiro ponto a diferenciar este novo trabalho. Em O Torto, o cômico deixa de ter papel central para aparecer de forma incidental. Ainda que nos momentos em que surja deixe evidente uma vocação natural do grupo para o seu exercício. Mas há uma seriedade em O Torto, desde sua primeira cena, que se deve ao peso que atribui à discussão política para o qual se volta o espetáculo.

Baseado num cordel do poeta mossoroense Antônio Francisco, a história contada pelo grupo faz uma referência à trajetória de Jesus Cristo quanto ao seu aspecto político. Numa cidade, uma criança nasce diferente. Ela caminha para frente enquanto todos caminham de lado. Seu modo particular causa incômodo aos poderosos do lugar e estes decidem eliminá-lo após uma longa busca a fim de encontrá-lo.

Por um enfoque político, O Torto se utiliza das lições de um teatro brechtiano, lançando mão do distanciamento épico. O ponto alto desta prática se dá com a pausa dada à narrativa, por uma das atrizes, para voltar-se diretamente ao público e perguntar se este identifica a criança da história com alguma que ele conheça.

A presença de um cenário formado pela imagem de pequenas casas - nas cortinas penduradas ao fundo do palco e também na frente deste a delimitar o espaço cênico - remete continuamente a um espaço urbano. O tamanho diminuto das casas diante da altura dos atores serve de metáfora para a desigualdade entre os poderosos, interpretados pelos atores, e a população que residiria naquelas habitações.

As relações de poder estão no centro da discussão. Assim como uma defesa por uma postura política diferenciada. A opção por não mostrar a figura da criança que anda torto, mas apenas se falar dela, demonstra o interesse mais nos que a veem como estranha do que na própria criança. Há intenção de que o público se coloque na posição dos algozes do que anda torto, levando aquele à reflexão acerca da própria intolerância.

A crítica do trabalho é feita aos homens que detém o poder, traduzida essencialmente na figura patética do rei, que possui ares de um Herodes. Algumas menções do figurino a elementos romanos, como os elmos dos soldados, reforçam a leitura por esta época histórica.

Há contudo uma sobreposição de intenções a apontar na mesma direção. Se a história remete à pobreza dos nossos governantes, aquela é acompanhada de referências à figuras da política atual. Se há um interesse por um tom mais sério, este apresenta ainda uma sisudez que impõe um ritmo por demais solene à encenação. Se se busca colocar o público na posição dos algozes da criança que anda torto, a própria narrativa nos leva a isso sem que um enfrentamento direto se fizesse necessário. Se se opta por abdicar primordialmente do humor, o trabalho acaba por optar por um tom retilíneo que evita variações no seu pulsar. Essas escolhas levam a um esgarçamento das questões apresentadas no trabalho, de modo que alcançamos as provocações propostas antes que o espetáculo nos leve a tal lugar. Disso surge uma certa sensação de repetição e esta se torna inimiga da relação que O Torto se empenha em construir. 

Verdade que o trabalho apenas estreou e já apresenta maturidade e segurança na execução das cenas. Não restam dúvidas sobre a seriedade do grupo quanto ao seu ofício teatral e na lapidação do seu fazer. E há vontade por se trilhar novos caminhos, apenas a de se ajustar esse desejo.

 

Ficha Técnica

Direção: Marcos Leonardo e Cia. Pão Doce 

Elenco: Bárbara Paiva, Mônica Danuta, Paulo Lima, Lígia Kiss e Romero Oliveira

Dramaturgia: Romero Oliveira e Cia. Pão Doce

Cenário e Figurino: Marcos Leonardo

Direção Musical: Romero Oliveira 

Preparação Vocal: Cláudia Max

Trabalho corporal: Anderson Leão

Estudo da palavra e trabalho de grupo: Júlio Maciel e Michelli Fábia